quarta-feira, 14 de novembro de 2012

STJ – Frustrada pretensão do filho de Lula

        Diante do imbróglio protagonizado pelo promotor de Justiça Arlindo Jorge Cabral Júnior soa oportuna a transcrição de notícia veiculada no site do STJ, o Superior Tribunal de Justiça, sepultando a pretensão de Fábio Luís Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula. O STJ mantendo o acórdão do TJDF, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal. O tribunal local avaliou que a matéria, que narrava a suposta compra de uma mansão pelo autor, não extrapolou os limites do exercício do direito de informar sobre assunto de interesse público, nem teve a intenção de caluniar ou difamar o autor da ação.
        A notícia, veiculada no site do STJ, foi enviada por leitora do Blog do Barata, também responsável pelo grifo em vermelho.

13/11/2012- 10h06

DECISÃO

Reportagem publicada em site não enseja indenização a filho de Lula

        A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou provimento ao recurso especial interposto por Fábio Luís Lula da Silva, filho do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.

        Ele buscava reverter o julgamento das instâncias ordinárias quanto à improcedência do pedido de dano moral causado por notícia publicada pelo jornalista Cláudio Humberto Rosa e Silva em seu site. Fábio alegou que a reportagem era ofensiva e o expôs ao desprezo público por indicar a cidade em que nasceu e onde ainda tem família radicada.

        A maioria dos ministros da Turma seguiu o voto do relator, Villas Bôas Cueva, mantendo o acórdão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). O tribunal local avaliou que a matéria, que narrava a suposta compra de uma mansão pelo autor, não extrapolou os limites do exercício do direito de informar sobre assunto de interesse público, nem teve a intenção de caluniar ou difamar o autor da ação.

Direito de informar

         Em seu voto, o ministro Villas Bôas Cueva avaliou que o exame do caso revela colisão entre dois direitos fundamentais, consagrados tanto na Constituição Federal quanto na legislação infraconstitucional: a livre manifestação do pensamento e a proteção dos direitos da personalidade, como a imagem e a honra.

         Segundo o relator, o tribunal de origem, soberano na análise fática da causa, concluiu que “a matéria publicada era de cunho meramente investigativo, revestindo-se, ainda, de interesse público, sem nenhum sensacionalismo ou intromissão na privacidade do autor, não gerando, portanto, direito à indenização”.

         Para o ministro, também foi delineado na sentença e no acórdão da corte local que o apelido “Lulinha” não possui carga difamatória e que a notícia veiculada por Cláudio Humberto se baseou em matérias anteriormente publicadas por outros veículos de comunicação.

        O ministro Cueva concluiu que a desconstituição das conclusões a que chegou o TJDF em relação à ausência de conteúdo ofensivo, como pretendido pelo recorrente, “ensejaria incursão no acervo fático da causa, o que, como consabido, é vedado ante a letra da Súmula 7 desta Corte Superior”.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

JUSTIÇA – Bandidos togados

MURAL – Queixas & Denúncias

UFPA – A mídia em debate

        Mídia e relações de poder na Amazônia; mídia, memória e cultura; mídia e história; conservação e acesso público dos acervos audiovisuais; utilização das fontes audiovisuais em pesquisas nas ciências humanas. Estes são alguns dos temas que estarão em debate a partir desta segunda-feira, 12, e nesta próxima terça-feira, 13, na UFPA, a Universidade Federal do Pará, dentro do 2º Encontro Regional Norte de História da Mídia e no 2º Seminário de História, Cultura e Meios de Comunicação na Amazônia.
        Os dois eventos serão realizados no auditório do Capacit, o Centro de Capacitação da UFPA, ambos voltados para estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores, profissionais das mídias e demais interessados em conhecer e dialogar sobre a história das mídias no Norte do país. As inscrições para participar das atividades como ouvinte podem ser feitas até esta segunda-feira, 12, no local dos evento, de acordo com o convite enviado ao Blog do Barata pelas professoras, que são também doutoras, Netília Silva dos Anjos Seixas e Alda Cristina Costa, coordenadoras do 2º Encontro Regional Norte de História da Mídia.
        No convite enviado ao Blog do Barata, Netília Silva dos Anjos Seixas e Alda Cristina Costa esclarecem que o 2º Encontro Regional Norte de História da Mídia compõe a agenda de eventos desenvolvida pela Alcar, a Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia. O objetivo é incentivar a discussão e o conhecimento sobre a memória da mídia no Norte do país, assim como vem sendo feito nas demais regiões brasileiras, acrescentam as coordenadoras do encontro.

UFPA – Programação e inscrição

        A programação completa do 2º Encontro Regional Norte de História da Mídia e do 2º Seminário de História, Culturas e Meios de Comunicação na Amazônia estão no blog oficial dos eventos, no endereço eletrônico www.historiadamidianorte2012.blogspot.com . Ambos os eventos são voltados para estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores, profissionais das mídias e demais interessados em conhecer e dialogar sobre a história das mídias no Norte do país. As inscrições para participar das atividades como ouvinte podem ser feitas até esta segunda-feira, 12, no local dos eventos.
        Os eventos são promovidos pela Alcar e UFPA, via Faculdade de Comunicação; dos Programas de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia e História Social da Amazônia; e das Pró-Reitorias de Extensão (Proex) e de Pesquisa e Pós-Graduação (Propesp).

UFPA – Atrações dos eventos

        2º Encontro Regional Norte de História da Mídia e o 2º Seminário de História, Cultura e Meios de Comunicação na Amazônia terão a participação dos professores Sérgio Mattos, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano; Berenice Machado, presidente da Alcar, a Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia; e Nair Prata, da Universidade Federal de Ouro Preto. Os três professores participarão, juntamente com o publicitário paraense Oswaldo Mendes e do professor da UFPA Geraldo Mártires Coelho, de uma mesa-redonda sobre Mídia e História. Na ocasião, a professora Nair Prata também lançará o livro “Enciclopédia do Rádio Esportivo Brasileiro”, do qual foi organizadora, com a jornalista Maria Cláudia Santos.
        A conferência de abertura dos eventos, que terá por tema Mídia, memória e cultura, ficará a cargo da professora, que é também doutora, Christa Berger, da Unisinos. A conferência de encerramento, será de responsabilidade do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto (foto), um profissional premiado nacional e internacionalmente e que discorrerá sobre Mídia, memória e cultura. Lúcio Flávio Pinto é o redator e editor do Jornal Pessoal, a mais longeva publicação da imprensa alternativa brasileira, em circulação há 25 anos e da qual é editor gráfico Luiz Pinto, o Luizpê. Jornalista, cartunista, desenhista gráfico e músico, Luizpê é irmão de Lúcio Flávio e a ele o Pará ainda deve um justo reconhecimento pelos múltiplos talentos.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

LUIZ PINTO – Polvos e povo

MURAL – Queixas & Denúncias

BLOG – De volta

        Recorrentes problemas técnicos, que inclusive impediam o acesso aos meus e-mails, obrigaram-me a suspender, nos últimos dias, a atualização do blog, que retomo nesta segunda-feira, 5.
        Peço naturalmente desculpas, pela ausência, e agradeço a compreensão dos internautas.

GUERRA SUJA – Rominho ataca. E Jader revida


        No rastro das eleições municipais, e particularmente da eleição do tucano Zenaldo Coutinho como prefeito de Belém, recrudesceu o tiroteio midiático entre Romulo Maiorana Júnior, o Rominho, presidente executivo das ORM, Organizações Romulo Maiorana, e o senador e ex-governador Jader Barbalho, o morubixaba do PMDB no Pará e a mais longeva liderança política da história do Estado. Inimigos figadais, os Maiorana e os Barbalho, com os respectivos grupos de comunicação, protagonizam não apenas uma disputa política, mas também empresarial, que passa ao largo de questões de princípios e cujo freqüente baixo nível acabou por torná-la uma autêntica guerra suja. Dessa vez coube a O Liberal, o principal jornal do grupo de comunicação dos Maiorana, retomar a guerra suja, com um virulento editorial, publicado em espaço nobre, na edição da última segunda-feira, 29 de outubro, acusando Jader de “corrupto, malfeitor e mentiroso”. A retaliação, em tom igualmente abrasivo, veio no dia seguinte, 30 de outubro passado, quando o Diário do Pará, o jornal do grupo de comunicação dos Barbalho, destinou uma página dupla, dedicada à vida pregressa do patriarca dos Maiorana e seu envolvimento com o contrabando – inclusive de armas – denunciado por O Globo, do Rio de Janeiro, em uma série de reportagens publicadas em 1957.
        O estopim para esse novo capítulo de ofensas e achincalhes mútuos foi a pesquisa de intenção de voto para prefeito de Belém, feita pelo Ipesp, o Instituto de Pesquisas Sociais Políticas e Econômicas. A pesquisa, publicada na edição do último domingo, 28 de outubro, do Diário do Pará, o jornal da família Barbalho, sinalizava para um suposto empate técnico entre o deputado federal Zenaldo Coutinho, do PSDB, e o deputado estadual Edmilson Rodrigues, do PSol, ex-prefeito de Belém, eleito em 1996 e reeleito em 2000, quando ainda no PT. A projeção do Ipesp revelou-se um fiasco, ao contrário da última pesquisa do Ibope, o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, encomendada pelos Maiorana e cujas projeções foram quase integralmente corroboradas pelas urnas.


GUERRA SUJA – Pretensão de ser o tutor

        Com a soberba de quem se sente o avalista eleitoral e o artífice midiático da vitória do prefeito eleito, e por via de conseqüência politicamente fortalecido, Romulo Maiorana Júnior, o Rominho (foto), retoma a cruzada dos Maiorana contra Jader Barbalho. O presidente executivo das ORM obviamente prioriza o objetivo de ser o tutor político não só de Zenaldo Coutinho, mas também do próprio governador tucano Simão Jatene, o Simão Preguiça, cuja parceria com o morubixaba do PMDB no Pará jamais foi absorvida pelos Maiorana. E nem pelos tucanos mais empedernidos, compelidos a conviver e prestar reverências aquele a quem, até passado bem recente, etiquetavam de Anhangá, o espírito maléfico na mitologia amazônica. Como os saqueadores do erário só vicejam na cizânia, na disputa pelo butim é indispensável, para os Maiorana, e também para a parcela mais voraz da tucanalha, afastar Jatene de Jader, para que se locupletem à vontade com as benesses do poder. Como bem sabem até os postes desta terra, o apreço pela moralidade pública passa ao largo dos protagonistas dessa guerra suja.
        É absolutamente previsível a afinidade dos Maiorana com a tucanalha, independentemente da guerra suja que travam com Jader Barbalho. De 1996 a 2006 – período que corresponde aos dois sucessivos mandatos do ex-governador Almir Gabriel e ao primeiro mandato de Simão Jatene como governador –, os Maiorana foram beneficiários de uma acintosa pilhagem ao erário. De 1996 a 2006, por um contrato travestido de convênio, para driblar a exigência de concorrência pública, a Funtelpa, a Fundação de Telecomunicações do Pará, simplesmente pagava um aluguel mensal para a TV Liberal utilizar suas 78 repetidoras e, assim, levar a programação da TV Globo para o interior do Estado. Ao longo de 10 anos, em valores ainda por atualizar, a tramóia rendeu R$ 37 milhões aos cofres das ORM e só foi abortada em 2007, após a posse da ex-governadora petista Ana Júlia Carepa, eleita em 2006, ao derrotar na sucessão estadual o ex-governador Almir Gabriel, então no PSDB, vitória que resultou da estratégia eleitoral traçada por Jader Barbalho. Diante do fim da mamata, os Maiorana ingressaram na Justiça com uma ação reivindicando uma indenização de mais de R$ 3 milhões, a pretexto de suposta “manutenção” feita nas repetidoras da Funtelpa.

GUERRA SUJA – Estrepolias da tucanalha

        O simulacro de convênio, que pavimentou o caminho que leva à pilhagem do erário, sempre teve a participação, em períodos distintos, daqueles que se sucederam como presidentes da Funtelpa. A começar por Francisco Cézar Nunes, que presidia a fundação quando o Palácio dos Despachos empurrou a tramóia goela abaixo do jornalista, batizado de O Astro, na fina ironia de Romulo Maiorana, nos primórdios da TV Liberal, da qual foi apresentador dos telejornais. Segundo revelou no seu Jornal Pessoal Lúcio Flávio Pinto, um jornalista premiado nacional e internacionalmente, Francisco Cézar ainda chegou a objetar, mas sucumbiu ao ultimato do Palácio dos Despachos, que lhe deixou duas alternativas – ou avalizava a pilhagem ao erário, ou seria defenestrado do cargo.
        Já Ney Messias, um professor de educação física que se apresenta como “agitador cultural”, hoje transmutado em secretário estadual de Comunicação, não revelou nenhum drama de consciência, quando presidiu a Funtelpa. Ele inclusive subscreveu a renovação do caricato convênio, em um dos derradeiros atos de Simão Jatene como governador, em 2006.

GUERRA SUJA – Memória seletiva

        A caricata pesquisa do Ipesp justificou Romulo Maiorana Júnior, o Rominho, entrar em cena, para expressar sua indignada repulsa pela tentativa de manipulação do eleitorado, que atribui a Jader Barbalho. “O cuidado, a cautela, o rigor de O Liberal, ao selecionar institutos acreditados, é uma demonstração inequívoca de que o respeito que nutrimos por nossos leitores está acima de tudo”, proclamou o presidente executivo das ORM. Disso se conclui que a memória de Rominho é extremamente seletiva.
        A saudável margem de acerto exibida este ano pelo Ibope, o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, nas eleições de Belém, é animadora. Mas em se tratando de O Liberal é a exceção, não a regra. Em 1982, apoiando o empresário Oziel Carneiro, como candidato ao governo pelo PDS, o Partido Democrático Social, e em 1990, patrocinando a candidatura a governador do também empresário Sahid Xerfan, do PTB, o principal jornal dos Maiorana abdicou dos mais elementares regras do bom jornalismo. Script que se sucedeu e foi levado ao paroxismo, pelos herdeiros de Romulo Maiorana, a cada disputa eleitoral mais acirrada e ao sabor do fluxo do caixa das empresas da família.
        O problema dos Maiorana não reside em tomar partido, mas de fazê-lo sorrateiramente, trombeteando o discurso da suposta isenção. Sabemos todos que a suposta isenção inexiste, não passa de uma falácia. A exigência basilar, para um bom jornalismo, pode ser resumida na máxima célebre – as interpretações são livres, mas os fatos são sagrados. Mas em se tratando de O Liberal, dos Maiorana, do qual nisso não se distingue o Diário do Pará, dos Barbalho, o respeito aos fatos, dependendo das circunstâncias, pode ser esquecido, desconhecido e enterrado como indigente.

GUERRA SUJA – Valéria, o palpite infeliz

        Mais recentemente, em 2008, nas eleições municipais em Belém, o Ibope – cujas pesquisas foram terceirizadas, acabando sob a responsabilidade de uma empresa de fundo de quintal - manteve na liderança absoluta a ex-vice-governadora Valéria Vinagre Pires Franco (foto), do DEM, a candidata da predileção dos Maiorana, permitindo-se apenas e tão-somente, na última rodada de pesquisas antes do primeiro turno, registrar um suposto empate técnico entre ela e Duciomar Costa (PTB), o nefasto Dudu. Abertas as urnas, a Dondoca da Doca, a despeito de ter feito a mais rica campanha eleitoral e gozar do indisfarçável apoio dos Maiorana, não só ficou fora do segundo turno, como amargou um humilhante quarto lugar, atrás de Arnaldo Jordy. Na época, o candidato do PPS, recorde-se, protagonizara uma campanha paupérrima, compensada apenas pelo seu conhecimento de causa sobre as mazelas de Belém.
        Longe do teleprompter e no debate direto com seus adversários, a musa do DEM revelou-se uma candidata medíocre, exibindo um desempenho pífio. O segundo turno, nas eleições de 2008, foi disputado por Duciomar Costa, pelo PTB, o plano B do então governador Almir Gabriel, naquela altura no comando do PSDB, e José Priante, do PMDB, primo de Jader Barbalho. Sabiam todos da periculosidade do nefasto Dudu, que no passado fora flagrado clinicando, fazendo-se passar por médico oftalmologista, ostentando inclusive um falso diploma, supostamente expedito pela UFPA, a Universidade Federal do Pará. Preso e fichado pela Polícia Federal, ele escapou da prisão porque, valendo-se de advogados chicaneiros, conseguiu seguir impune, até o crime prescrever. Ironia das ironias: o advogado do Conselho Regional de Medicina e do Sindicato dos Médicos, no imbróglio envolvendo Duciomar Costa, era Ronaldo Barata, já falecido, um profissional de competência, experiência e probidade reconhecidas, que foi um dos fundadores do PSDB no Pará. Fiel escudeiro de Almir Gabriel, por conta das conveniências políticas do Palácio dos Despachos, Ronaldo viu-se obrigado a conviver com o nefasto Dudu, a quem a tucanalha inicialmente tornou senador, eleito em 2002, e posteriormente prefeito de Belém, eleito em 2004 e reeleito em 2008.

GUERRA SUJA – A fala do reino dos Maiorana

        No editorial publicado ao lado do Repórter 70, a nobre coluna de O Liberal, na edição de segunda-feira, 29 de outubro, sob o título “As urnas desmascaram um corrupto e malfeitor”, os Maiorana, com ênfase para Romulo Maiorana Júnior, o Rominho, investem furiosamente contra Jader Barbalho. “Corrupto, malfeitor e mentiroso, esse ficha suja é aquele que há mais de três décadas barbalhisa o erário, dilapida o dinheiro público e usa parte do produto amealhado com enriquecimento ilícito para desinformar, enganar e iludir a opinião pública paraense”, assinala o editorial, para acrescentar: “A última arte desse malfeitor foi usar seu pasquim para publicar pesquisa apontando um empate técnico entre os dois candidatos que disputaram domingo o segundo turno das eleições para prefeito de Belém.”
        Como de hábito, os Maiorana também investem na pecha de corrupto que aderiu a Jader Barbalho, no rastro de uma súbita e inexplicável evolução patrimonial. Um estigma que o acompanha desde seu primeiro mandato como governador do Pará, de 15 de março de 1983 a 15 de março de 1987. “Mesmo sendo corrupto, no entanto, esperava-se que esse elemento já tivesse algum juízo, considerando sua avançada idade”, fustiga o editorial. “Mas que nada! Está cada vez pior. Os efeitos nocivos de sua falsa liderança afundaram o PMDB no Pará”, acrescenta o editorial de O Liberal, publicada na página três do primeiro caderno, em tipologia acima da habitual, ao lado do Repórter 70, a nobre coluna do principal jornal dos Maiorana. “Nem mesmo o candidato do PMDB a prefeito de Belém, primo do elemento, não o quis em sua campanha, morto de vergonha pela associação de parentesco”, dispara ainda o editorial, referindo-se ao deputado federal José Priante, que vive uma relação ambivalente com Jader Barbalho, que é também o seu patrono político. Uma relação permeada por mágoas insepultas, da parte de Priante, e de ressentimentos até aqui represados, da parte de Jader e dos filhos do seu casamento com dona Elcione Barbalho, deputada federal pelo PMDB.
        Convém receber com reservas o súbito rigor ético de Rominho, em particular, e dos irmãos Maiorana, em geral, embora Jader Barbalho não sirva de contraponto, exceto pelo carisma e elegância que o morubixaba do PMDB revela no trato com seus interlocutores, independentemente de afinidades político-partidárias. Essa virtude é tanto mais surpreendente em se tratando de um filho de Laércio Barbalho, já falecido e fundador do Diário do Pará, um casca-grossa incorrigível e de parcos escrúpulos. A suposta credibilidade de O Liberal, da qual jacta-se Rominho, soa fatalmente a balela, considerando os antecedentes dos Maiorana. O Liberal, recorde-se, saiu pelas portas dos fundos do IVC, o Instituto Verificador de Circulação, depois da descoberta que os Maiorana fraudavam os números que lhe conferiam a liderança absoluta do mercado. Constatou-se, então, que o Diário do Pará superara em vendas seu concorrente direto, O Liberal, posição que conserva desde então o jornal do grupo de comunicação dos Barbalho.

GUERRA SUJA – Preocupação social

        A vida se encarregou de reduzir a limites toleráveis a arrogância de Romulo Maiorana, anabolizada pelo sucesso como empresário da comunicação. Ao mesmo tempo, ele exteriorizava claramente suas preocupações sociais, algo inusitado para a época. Nunca, jamais, deixou de pagar em dia seus funcionários. “Minha preocupação, ao pagar com pontualidade, é impedir que eles percam o crédito no comércio”, disse-me certa vez o próprio Romulo, em um dos raros contatos diretos que tive com ele, quando diretor do Sindicato dos Jornalistas.
        Leal e generoso como amigo, o patriarca dos Maiorana certamente não teve tempo de fazer o mais velho dos seus dois filhos interiorizar uma lição básica de sobrevivência na selva urbana– a auto-suficiência ajuda a alimentar a animosidade que cerca os muito poderosos em geral e os arrogantes em particular.

GUERRA SUJA – Derrota acachapante na AP

        Foi por conta de sua dose de arrogância, possivelmente, que Romulo, já todo-poderoso, experimentou um revés traumático, para sua cota de vaidade, quando saiu candidato a presidente da Assembléia Paraense, um dos mais ricos, clubes do Norte do Brasil, cujas veleidades aristocráticas ficaram no passado. Ele amargou uma derrota acachapante imposta pelo respeitável advogado Edgar Contente, escalado apenas para marcar posição. Magoado, Romulo administrou silente o revés e migrou para o Iate Clube, no qual investiu pesadamente, inclusive com recursos próprios, até transformá-lo em point dos homens de bem e de bens.
        No relato de testemunhas do revés imposto a Romulo, a pretensão do empresário da comunicação de tornar-se presidente da Assembleia Paraense supostamente embutiria um surdo revide, por no passado ter sido punido com uma suspensão, em decorrência de um comportamento impertinente, provocado por excessos etílicos. Esse rigor não surpreende, se devidamente contextualizado. No passado, o estatuto do clube proibia, por exemplo, que mulheres desquitadas freqüentassem a Assembleia Paraense, proibição que se estendia também a mulheres que não fossem formalmente casadas. Na reforma do estatuto, da qual participou o ex-deputado Oswaldo Melo, já falecido, o ex-parlamentar advogou em causa própria, ao deletar a discriminação contra as mulheres desquitadas ou que não fossem formalmente casadas. Isso impedia Melo de freqüentar o clube com a sua segunda mulher, obstáculo que o ex-parlamentar diligentemente tratou de remover.

GUERRA SUJA – Louvável generosidade

        Mesmo já próspero, Romulo nunca esqueceu dos amigos e/ou remanescentes de baratismo. Na sua época, os funcionários de O Liberal recebiam quinzenalmente, embolsando parte dos vencimentos dia 14 e recebendo o restante dia 28 de cada mês. Nesses dias registrava-se a presença de vetustos senhores, viúvas do baratismo, a quem Romulo ajudava financeiramente, em um elenco que incluía Laércio Barbalho (foto), pai de Jader Barbalho e cassado pelo regime militar por corrupção. “Seu” Laércio Barbalho integrara os escalões inferiores do baratismo, fazendo parte, pela própria envergadura física ostentada na juventude e truculência revelada pelo temperamento, da tropa de choque dos baratistas, encarregada, dentre outras missões, de empastelar manifestações da oposição a Magalhães Barata. De acordo com múltiplos relatos, o pai de Jader jamais integrou o círculo mais íntimo de Magalhães Barata, tal qual os ex-governadores Aurélio do Carmo e Hélio Gueiros, e a exemplo do ex-vice-governador Newton Miranda. A versão em sentido contrário brotou dos áulicos que orbitam em torno do filho ilustre de Laércio Barbalho.
        Do elenco de pessoas a quem Romulo ajudava figurava até João Maranhão, filho de Paulo Maranhão, naquela altura já falecido, ao qual coube suceder o pai, embora sem o talento deste, no comando da Folha do Norte. Com sua decadência, o jornal da família Maranhão acabou sendo adquirida por Romulo, que no suntuoso prédio da rua Gaspar Viana, amplamente reformado, abrigou O Liberal. A ironia é a Folha, símbolo da resistência a truculência de Magalhães Barata, acabar nas mãos justamente de quem prosperou sob a égide do baratismo e cuja esposa, Lucidéa Batista Maiorana, a dona Déa, de origem paupérrima e passado turbulento, era sobrinha do caudilho.

GUERRA SUJA – Ironias da história

        Em uma dessas ironias da história, Romulo não só adquiriu o legado do império da família Maranhão, como manteve o respeitável título Folha do Norte na gaveta e só voltou a lançar mão dele episodicamente. Uma delas foi quando o advogado Avertano Rocha e o jornalista Oliveira Bastos arrendaram o jornal O Estado do Pará, do ex-prefeito de Belém Lopo de Castro, que fez oposição a Magalhães Barata e cuja emissora de televisão, a TV Guajará, perdeu a condição de afiliada da TV Globo para a TV Liberal, de Romulo Maiorana. Pagando bem acima da média do mercado e com um grafismo inovador, O Estado do Pará teve como redator-chefe Walmir Botelho D’Oliveira, o atual diretor corporativo de jornalismo de O Liberal e um dos mais respeitados jornalistas da imprensa brasileira, embora seja hoje refém da falta de compromisso com o bom jornalismo por parte de Rominho. A intenção de Romulo era clara: manter íntegra a linha editorial de O Liberal e tornar a Folha do Norte a concorrente direta de O Estado do Pará, que acabou inviabilizado pelos desmandos administrativos. Com isso, a Folha do Norte, em sua nova fase, logo saiu de circulação.
        Depois da morte de Romulo Maiorana, a Folha do Norte voltou a circular em 1990, com o assumido objetivo de servir de palanque impresso para Sahid Xerfan, como candidato a governador, em oposição a Jader Barbalho, poupando O Liberal de fazer o serviço sujo, eventualmente necessário. Uma estratégia que fracassou e empurrou o principal jornal dos Maiorana para o charco do vale-tudo eleitoral, no qual submergiu bem mais do que a Folha do Norte em seu novo ciclo. A pretexto de voltar a colocar em circulação a Folha do Norte, Rominho contratou Walmir Botelho D’Oliveira, que tivera uma brilhante passagem pelo Correio Braziliense e cujo projeto de ter seu próprio jornal em Brasília, juntamente com o jornalista Oliveira Bastos e o empresário Ronald Junqueira, fracassara. A contratação de Walmir, nas circunstâncias em que se deu, sugere que Rominho já mirava no esvaziamento da autoridade de Cláudio Augusto Sá Leal, como redator-chefe de O Liberal, cacifado pela confiança que nele depositava o patriarca dos Maiorana. Confiança que Romulo transferiu para dona Déa.
        O golpe fatal de Rominho na autoridade de Sá Leal - que era também homem de confiança do empresário Armando Carneiro, de cuja empresa foi advogado - se deu com a reforma gráfica de O Liberal encomendada a Walmir Botelho D'Oliveira, antes mesmo que este fosse formalizado como o novo diretor redator-chefe do principal jornal do grupo de comunicação dos Maiorana. Eminência parda da família Maiorana, Sá Leal, cuja auto-suficiência gerou a hostilidade de Rominho, só tomou conhecimento formal da reforma gráfica quando o projeto do novo grafismo era fato consumado. Com a saúde fragilizada, devido problemas cardíacos, com isso, involuntariamente, ele abriu caminho para Rominho assumir, de fato, o comando de O Liberal, esvaziando também a autoridade de Rosângela Maiorana Kzan, diretora administrativa.

GUERRA SUJA – O barão da comunicação

        Na condição de um bem-sucedido barão da comunicação, Romulo Maiorana colocou O Liberal a reboque do regime dos generais, sem abdicar, porém, de seu status, no âmbito do Pará. Mas por ser efetivamente jornalista, cultivava um sincero reconhecimento pela habitual saga dos que dedicam-se a garimpar a informação. Com um estilo próprio, condimentando pela verve que revelava em notas curtas, ele era o responsável pela seção intitulada “Em Poucas Linhas”, do “Repórter 70”, cuja parte superior ficava por conta de Hélio Gueiros e Newton Miranda.
        Cioso do seu status social, o patriarca dos Maiorana era capaz de desafiar os poderosos de plantão do Estado, em defesa dos seus jornalistas. Como pode verificar o ex-governador Aloysio Chaves, em um imbróglio envolvendo Luiz Paulo Freitas, já falecido, um repórter de mão cheia, cujo talento foi sufocado pela compulsão pelo jornalismo chapa-branca. Luiz Paulo Freitas ganhou visibilidade, para o público externo, com a eclética coluna do Paulo Zing, pseudônimo que adotou como um dos colunistas de O Liberal.

GUERRA SUJA – Exemplo para os herdeiros

        Há uma passagem, na história recente do Pará, ilustrativa para os herdeiros de Romulo Maiorana, e mais particularmente para Ronaldo Maiorana, protagonista da covarde agressão sofrida pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto. A despeito de ter tornardo-se empresário da comunicação, o patriarca dos Maiorana não deixou morrer o jornalista que nele existia. O que explica a postura por ele assumida, por exemplo, em um imbróglio envolvendo Luiz Paulo Freitas, repórter político de O Liberal.
        Na sucessão de Aloysio Chaves (foto), este recebeu no palacete residencial do governador, hoje Parque da Residência, o ex-governador Alacid Nunes, que viria a sucedê-lo, em um encontro que deveria ser sigiloso. A notícia vazou e Cláudio Sá Leal, na época o redator-chefe de O Liberal e um dos mais talentosos jornalistas de sua geração, despachou Luiz Paulo Freitas para cobri-la. A saída de Alacid, tendo ao lado Aloysio Chaves, foi registrada em fotos, o que possivelmente contribuiu para potencializar a irritação do governador no exercício do mandato, de postura patologicamente imperial. E a irritação foi tanta, que Aloysio abordou Luiz Paulo Freitas e ameaçou devolvê-lo ao Banco do Brasil, do qual o jornalista era originário, se O Liberal viesse a noticiar a reunião. O rasgo de prepotência foi possivelmente estimulado pelo fato da mãe do jornalista ter sido lavadeira da família de Aloysio Chaves.
        Temendo perder a cedência ao governo do Estado e deste para a Prefeitura de Belém, o que garantia-lhe um confortável padrão de vida, acima da média possível para os demais repórteres que dependiam apenas de si para sobreviver, ao retornar a O Liberal Luiz Paulo tratou de relatar a ameaça de retaliação a Romulo Maiorana. “Pode escrever a matéria, que se você perder o emprego (na Prefeitura de Belém) eu consigo outro no qual você vai ganhar muito mais”, sentenciou o patriarca dos Maiorana, de acordo com o relato do próprio Luis Paulo Freitas, aos colegas de redação. E assim foi feito. No dia seguinte, O Liberal circulou com a notícia exclusiva, ilustrada com fotos, do encontro de Aloysio Chaves com Alacid Nunes.
        Detalhe revelador do poder político de Romulo Maiorana: Aloysio Chaves não consumou a ameaça de retaliação feita a Luiz Paulo Freitas, que pode assim continuar tocando sua vida tranquilamente.

GUERRA SUJA – O revide do morubixaba

        Diante da virulência do editorial de O Liberal, Jader Barbalho (foto) revidou de forma devastadora. Dessa vez ele sobrestou a lembrança da vida pregressa de Romulo Maiorana Júnior, o Rominho, e de Ronaldo Maiorana, réus em ação judicial movida pelo Ministério Público Federal, por suspeita do envolvimento de ambos em corrupção no imbróglio da Sudam, a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia. Na sua edição de terça-feira, 30 de outubro último, o Diário do Pará reproduziu em página dupla, no primeiro caderno, parte da série de 22 reportagens publicadas por O Globo, nas quais desponta Romulo Maiorana como contrabandista de armas. Fragmentos do material publicado integralmente pelo Diário do Pará já circulavam na internet, endereçados a um variado elenco de internautas.
        As reportagens de José Leal, um premiado jornalista, com fotos de Indayassu Leite, escancaram o submundo do contrabando, focando no patriarca dos Maiorana. “Rômulo Maiorana – O maior contrabandista de armas da Amazônia”, é o título da página dupla publicada pelo Diário do Pará, ilustrada com fotos e artes gráficas, com destacada chamada na primeira página do Diário do Pará, intitulada “Romulo Maiorana, rei do contrabando na Amazônia” e acompanhada de foto do patriarca dos Maiorana. “A revelação, acima de tudo, corrobora o que o próprio filho de Rômulo Maiorana, Rômulo Maiorana Jr., chefe atual do clã dos Maiorana, revelou em editorial de baixo nível assinado pelo próprio e publicado na capa da edição de seu jornal no dia 20 de maio passado: ’Ora, se ele foi contrabandista, foi para dar comida a sete pessoas, a sua família (sic)...’ Não resta dúvidas de que, para a família Maiorana, os fins justificam os meios”, fustiga uma das sub-retrancas da recente reportagem do Diário do Pará sobre o passado de Romulo Maiorana. E arremata: “Pela ótica de Rominho, criminosos e assassinos como Nem da Rocinha e Fernando Beira-Mar estariam coonestados, isto é, seriam honestos e decentes, como Rômulo Maiorana, o pai, desde que o dinheiro fosse usado para a família.”
        No revide do Diário do Pará, não faltou a estocada envolvendo o passado de dona Déa Maiorana. “Além de escrever uma coluna no jornal de Barata, Rômulo passou a namorear uma sobrinha do general, Lucidéia (sic), mais conhecida como Déa, jovem bonita e que nas altas rodas da sociedade paraense era conhecida por um modo de vida nada ortodoxo para a moral conservadora da época”, assinala a reportagem do jornal dos Barbalho, em uma de suas sub-retrancas.

GUERRA SUJA – Um resgate incômodo

        Na guerra que trava com seus inimigos figadais, Jader Barbalho dessa vez não poupou munição, ao resgatar a série de 22 reportagens do repórter José Leal, com fotos de Indayassu Leite, intituladas "Um Repórter na Rota do Contrabando - O Início de Uma Jornada Perigosa", publicadas por O Globo, entre 25 de fevereiro e 23 de março de 1957, quando o Rio de Janeiro ainda era Distrito Federal. As reportagens foram publicadas também pela Folha do Norte, de Belém, e nos vastos relatos de José Leal desponta Romulo Maiorana, envolvido com contrabando de armas. Naquela altura um forasteiro, na definição da época, na reportagem Romulo é apresentado como publicitário e colunista de O Liberal, então um pasquim a serviço do PSD, o Partido Social Democrático, abrigo dos baratistas, os correligionários de Magalhães Barata, o caudilho que pontificou na política paraense. Trata-se de uma lembrança incômoda para os Maiorana, dedicados a varrer da história oficial o passado nada lisonjeiro de seu patriarca e da própria matriarca da família, Lucidéa Batista Maiorana, dona Déa, que, casada, tornou-se esposa, mãe e avó dedicada.
        As lembranças do passado dos pais são tão dolorosas para os Maiorana, que por tê-las mencionado discreta e elegantemente, em um contexto bem específico e justificável, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, um profissional respeitado e premiado nacional e internacionalmente, foi covardemente agredido por Ronaldo Maiorana (foto), com o auxílio de capangas. A brutal agressão ocorreu no concorrido restaurante do Parque da Residência, na nobre avenida Magalhães Barata e que até passado recente abrigou a residência oficial do governador. O mais jovem dos dois filhos de Déa e Romulo, aos quais se somam cinco filhas, Ronaldo é hoje apresentado como diretor jurídico de O Liberal, depois de constar no expediente do jornal como diretor editor corporativo, mas desde sempre coadjuvante do irmão mais velho, Romulo Maiorana Júnior, o Rominho, presidente executivo do grupo de comunicação da família.

GUERRA SUJA – Gueiros e as baixarias de 1982

        Surpreendentemente, para consumo externo, não ficaram seqüelas visíveis em relação ao ex-governador Hélio Gueiros (foto), que rompeu com Romulo Maiorana no rastro das eleições de 1982, quando tornou-se senador pelo PMDB, pelo qual também foi eleito governador Jader Barbalho. Das páginas do nascente Diário do Pará, surgido para sustentar, mesmo precariamente, a candidatura de Jader ao governo, Gueiros foi cruel, revolvendo impiedosamente o passado de Romulo, sem poupar sequer dona Déa em suas constrangedoras reminiscência. Compelido pelo regime militar a apoiar as candidaturas do empresário Oziel Carneiro ao governo e do coronel Jarbas Passarinho ao Senado, na esteira da concessão da TV Liberal, afiliada da TV Globo, Romulo amargou a ira de Gueiros, ironicamente o amigo da véspera. A pretensão de Romulo, de turbinar financeiramente, por debaixo dos panos, as candidaturas majoritárias do PMDB, não prosperou, diante da reação ensandecida de Hélio Gueiros, de parcos escrúpulos quando contrariado.
        Quando o patriarca dos Maiorana comprou O Liberal, alavancando o jornal com seu reconhecido empreendedorismo e notável sagacidade, Gueiros, jornalista e advogado, também baratista, tornou-se, na definição do amigo de então, um dos cardeais do Repórter 70, a nobre coluna do principal matutino dos Maiorana, juntamente com o cartorário e ex-vice-governador Newton Miranda, outro ilustre baratista. Ambos, Hélio Gueiros e Newton Miranda, tiveram os seus direitos políticos cassados pela ditadura militar que tomou de assalto o poder, com o golpe de 1º de abril de 1964, catapultando para o proscênio político Jarbas Passarinho e Alacid Nunes, todos dois militares.

GUERRA SUJA – Amargas lembranças

        Um polemista virulento, Hélio Gueiros investiu furiosamente contra Romulo Maiorana, sequer respeitando a privacidade do ex-amigo, ao escancarar publicamente, por exemplo, o passado de dona Déa Maiorana como dama da noite. “Não se deixem impressionar pelo que O Liberal publica. Um jornal cujo dono frauda até resultados da Loteria Esportiva é capaz de fraudar tudo, até pesquisas eleitorais”, disparou ainda, inflamado, na Praça do Relógio, no Ver-o-Peso, em um dos derradeiros comícios do PMDB, na campanha eleitoral de 1982. Na ocasião Romulo figurava entre os suspeitos de integrar a quadrilha que manipulava resultados dos jogos da Loteria Esportiva, um escândalo repercutido pela grande imprensa nacional.
        A despeito de tudo, segundo relatos de bastidores, Romulo teria relevado o achincalhe de Gueiros, pavimentando uma reconciliação que não chegou a ser materializada devido a morte do patriarca dos Maiorana, em 1986, vítima de câncer. Eleito governador naquele mesmo ano, sob o patrocínio de Jader Barbalho, Gueiros reaproximou-se de dona Déa e dos filhos, embora sem a intimidade que tivera com Romulo Maiorana. Ele voltou a contar com O Liberal, particularmente após formalizado o rompimento com seu patrono político de então, Jader Barbalho.

GUERRA SUJA – Em 1990, uma disputa virulenta

        Nas eleições de 1990, Gueiros patrocinou a candidatura, pelo PTB, de Sahid Xerfan, ex-prefeito de Belém e um bem-sucedido empresário, sob o entusiástico apoio dos Maiorana, em uma das mais virulentas campanhas da história política do Pará. Fustigado, Jader novamente se lançou candidato ao governo, derrotando Xerfan, cuja campanha foi escandalosamente turbinada por O Liberal, inclusive em detrimento dos mais elementares princípios do jornalismo. Enquanto perdurou a apuração oficial, o jornal priorizou os números fornecidos pelo comitê de campanha de Sahid Xerfan, obviamente favoráveis ao candidato do PTB, em uma coligação que incluía o PDS, o Partido Democrático Social, sucedâneo da Arena, a Aliança Renovadora Nacional, como legenda de sustentação do regime militar.
        Rompido com Jader Barbalho, Gueiros migrou do PMDB para o PFL, do qual é sucedâneo o DEM, elegeu-se prefeito de Belém, em 1992, e em 1994 ajudou a eleger governador Almir Gabriel, do PSDB, com o qual posteriormente rompeu, juntamente com o filho, Hélio Gueiros Júnior, o Helinho, vice-governador do tucano. Hostilizados pelo também pérfido aliado tucano, Gueiros e Helinho retornaram aos braços de Jader na sucessão estadual de 1998, quando pela primeira vez o morubixaba do PMDSB no Pará amargou um revés eleitoral, ao ser derrotado por Almir Gabriel, que utilizou escancaradamente a máquina administrativa estadual. Naquele ano Gueiros foi derrotado para o Senado e o filho não conseguiu eleger-se deputado, submergindo ambos no ostracismo político.
        O balanço da disputa eleitoral de 1990 foi particularmente doloroso para o empresário Sahid Xerfan, ex-prefeito eleito de Belém. Um próspero empresário, proprietário de uma cadeia de lojas de confecções, ele simplesmente foi à bancarrota para honrar as dívidas de campanha. Reza a lenda que inicialmente Xerfan procurou Hélio Gueiros, para tratar do pagamento das dívidas de campanha, ouvindo do seu ilustre interlocutor que dívidas de campanha são feitas para não se pagar, pelo menos em se tratando de candidatos derrotados.
        Independentemente de preferências político-partidárias, a postura de Xerfan, nesse e em outros episódios, sugere tratar-se de um homem probo. Quando o jornalista e ex-deputado Aldo Almeida morreu, os filhos do primeiro casamento dele estiveram na iminência de perder o apartamento residencial da família, financiado, porque o pagamento estava atrasado. Antonice Ramos, a Nice, que começou como telefonista em O Liberal e tornou-se servidora da Alepa, a Assembleia Legislativa do Pará, viúva de Aldo, um fiel correligionário do coronel Alacid Nunes, foi à procura do ex-governador, em busca de uma solução para o problema, sem obter êxito. Ao procurar Xerfan, do qual Aldo Almeida fora assessor, o empresário levantou os recursos necessários para colocar o pagamento do imóvel em dia, tornando possível quitá-lo.

GUERRA SUJA – O contexto da denúncia

        Com sede no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1957 O Globo já figurava dentre os mais importantes jornais da grande imprensa brasileira. Na sua época, o maior jornal da Amazônia, a Folha do Norte era comandada pelo lendário Paulo Maranhão, o destemido jornalista, de estilo devastadoramente abrasivo, notabilizado por desafiar o todo-poderoso Magalhães Barata (foto). Um caudilho que foi interventor e governador do Pará, com o perfil autocrático próprio da formação castrense, com seu estilo populista Barata passou para a posteridade como o maior líder político da história recente do Estado. Ele morreu no poder, em 1959, como governador eleito, vítima de leucemia, idolatrado pelas massas, mas execrado por expressivos setores da sociedade paraense – dos conservadores aos progressistas.
        Em uma época em que a TV ainda não se disseminara e o Norte vivia isolado do resto do Brasil, a força da mídia impressa só encontrava paralelo na popularidade do rádio. Sob esse cenário, despontava Paulo Maranhão, que comandava a oposição a Magalhães Barata da Folha do Norte, abrigada no majestoso prédio da rua Gaspar Viana com a travessa 1º de Março. Enquanto o jornal perdurou nas mãos da família Maranhão, as paredes da redação conservavam as marcas dos tiros dos atentados perpetrados pelos baratistas, os correligionários de Barata, como símbolos da resistência democrática aos desvarios autoritários. A uma certa altura, a Folha, proporcionalmente, ostentava uma das maiores tiragens da grande imprensa brasileira, segundo revelou em 1986, em uma passagem por Belém, o jornalista Cláudio Abramo, já falecido e um dos ícones do jornalismo brasileiro, responsável pela modernização, gráfica e editorial, do jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo.
        Autoritário e truculento, Magalhães Barata ganhou popularidade ao introduzir a prática do governo itinerante, percorrendo o interior secularmente esquecido, e instituir as audiências públicas, nas quais abria às massas as portas do majestoso Palácio Lauro Sodré, a sede do Poder Executivo, hoje Museu do Estado, algo jamais visto até então. Nas audiências públicas, segundo os relatos da época, ele ouvia os reclamos dos desvalidos e até dirimia prosaicos contenciosos, na perspectiva de suas rudes idiossincrasias, capaz de fazê-lo negar licença médica a uma professora gestante, argumentando que gravidez não é doença, conforme a lenda disseminada pelos próprios baratistas. Com seus próprios correligionários, Barata era imperial. Dalila Ohana, sua ex-companheira, relatou, nas memórias sobre as últimas 72 horas do caudilho, que ao recebê-los apenas de camisa para um almoço político, ao ver alguns deles desvencilharem-se do paletó, sem pedir consentimento, retirou-se momentaneamente, retornando com sua farda militar. Quem despira-se do paletó tratou de vesti-lo novamente, sabendo que o caudilho era extremamente cioso de sua autoridade e da liturgia do cargo. Barata também ganhou notoriedade pela honestidade pessoal, morrendo pobre, apesar do poder que deteve, mas coonestava o contrabando e o jogo do bicho. que financiavam o baratismo, sob o qual inicialmente prosperou Romulo Maiorana, após chegar ao Pará com uma mão na frente e outra atrás.

GUERRA SUJA – Quando o passado condena

        Reminiscência envolvendo o passado do pai são motivo de desassossego para os herdeiros de Romulo Maiorana, devido a inevitável associação ao contrabando. Antes de tornar-se empresário da comunicação, ao comprar e fazer prosperar O Liberal, ele foi um bem-sucedido lojista, proprietário de uma cadeia de lojas de confecção, a RM Modas. Mesmo nessa época, de acordo com recorrentes testemunhos, Romulo não abdicou de suas atividades como contrabandista, até por força da austeridade ensandecida dos novos donos do poder, que ascenderam com o golpe militar de 1º de abril de 1964. Austeridade sepultada com o decorrer dos anos, como inevitavelmente ocorre em regimes de exceção.
        Esse passado foi fonte de eventuais constrangimentos para o próprio Romulo. Quando desembarcou em Belém para comandar a 8ª Região Militar, no início dos anos 70 do século passado, nos anos de chumbo da ditadura militar, o general José Ferraz da Rocha, um militar extremamente austero e rigoroso, advertiu que não admitiria ser fotografado ao lado do empresário da comunicação, em virtude de sua vida pregressa. Já incensado como um todo-poderoso, Romulo, ao que consta, ficou deprimido com o interdito proibitório. Ele também amargou outro constrangedor veto, ao se ver impedido de colocar logo em seu nome a concessão da TV Liberal, porque setores do regime militar faziam severas restrições ao seu passado como contrabandista, conforme revelação do jornalista Lúcio Flávio Pinto.
        Célebre pela sagacidade e também sedutor, quando assim queria ser, no âmbito restrito de Belém Romulo às vezes revelava-se desagradavelmente arrogante. Quando o restaurante Lá em Casa funcionava nos porões de um belo casarão na avenida Governador José Malcher, na altura da avenida Almirante Wandenkolk, inauguraram o Pub, um ambiente pequeno, mas acolhedor, climatizado, anexo ao restaurante de dona Ana Maria Martins e de Paulo Martins, seu filho. Em certa ocasião, relatam testemunhas do episódio, Romulo desembarcou no Pub, com dona Déa e outros casais amigos. Ao ser servido o filé que pedira, ele achou que estaria frio e reclamou grosseiramente. Dona Déa tratou de experimentar o filé, que supostamente não estaria no ponto. “Romulo, acaba com isso; não tem nada de errado!”, admoestou a esposa do jornalista e empresário, com aquela ascendência feminina que só a intimidade da alcova confere.

GUERRA SUJA – A rota do contrabando

        O contrabando de armas no Pará soou inusitado para José Leal, conforme ele relata em uma das suas reportagens, cujas passagens transcritas reproduzem a ortografia do texto original. A observação de Leal, que ficou abrigado no Grande Hotel (foto, demolido, para fazer surgir o Hilton Hotel), point dos poderosos de plantão, endinheirados e intelectuais da época, segue abaixo, em itálico.

        Era, para mim, uma novidade, pois até aquela data havia entrado clandestinamente no Pará toda espécie de mercadorias, procedentes de Paramaribo, com exceção de armas. Apenas um barco trouxe certa vez algumas espingardas, porque na Guiana Holandesa os estabelecimentos não vendem pistolas ou outros meios de defesa pessoal, constituindo porte gravíssimo o porte de arma, que é privativo da Polícia ou do Exército. Sendo assim, os Smith and Wesson que apareceram em Belém não poderiam ter vindo do Surinam. Não me foi difícil descobrir tôda a verdade, o que se deu graças a uma brincadeira.

        No desdobramento, ele revela que as armas contrabandeadas procediam dos Estados Unidos, em um relato no qual Romulo Maiorana é citado como um dos envolvidos no contrabando. O jornalista de O Globo detalha, inclusive, seu encontro com Maiorana.
        José Leal prossegue, na reportagem, contando do ardil do qual se valeu, após indagar, de um dos seus interlocutores, que se chamaria Paulo Freire, como conseguira “um lindo revólver calibre 32, oxidado, cabo de nogueira”. Este é o relato contido na reportagem, também reproduzido em itálico:

        Espantado, perguntei-lhe onde e como o adquirira. Foi claro:
        - Um amigo meu acaba de regressar dos Estados Unidos e trouxe uma partida de cem.
        Mostrei-me interessado, dizendo a Paulinho que tinham incumbindo-me de comprar alguns revólveres.
        - Como poderei fazer o negócio? – indaguei.
        - Vou falar com ele para procurar você à noite.

GUERRA SUJA – O contrabando de armas

        Segue, abaixo, igualmente em itálico, o relato de José Leal, no capítulo dedicado ao envolvimento de Romulo Maiorana (foto) com o contrabando de armas, de acordo com a denúncia de O Globo, respeitada, como de praxe, a grafia original.

        Realmente: à noite apareceu no hotel um môço bem vestido, insinuante, delicado e, pelo que eu pude deduzir de suas primeiras palavras, muito ladino. Era Rômulo Maiorana, dono de uma agência de propaganda em Belém, pernambucano de nascimento, que esteve na Europa durante a guerra, tendo trabalhado na Itália numa repartição do Exército americano. Estivera em Paris e noutras capitais do Velho Mundo, e agora se encontrava em Belém, onde faz a coluna social do matutino “O Liberal”. Explicou-me que no Pará lutou a princípio com certas dificuldades, mas que finalmente vencera e superara todas as crises, estando no momento com uma situação financeira equilibrada. Adiantou-me ainda que se tornara colunista social por uma questão de conveniência.
        - No Pará, é o melhor trampolim do mundo para a gente fazer bons negócios.
        Finalmente, confessou que regressara havia pouco dos Estados Unidos e resolvera trazer armas, máquinas de escrever, rádios etc. Mas não disse como desembarcara essas mercadorias. Salientou, isto sim, que só trouxera o que fora possível trazer “legalmente”. Quase dei uma gargalhada quando me falou em "legalmente". Como sabem os leitores, a venda de armas é severamente controlada, e sua saída do país exige uma série tão complicada de formalidades que sòmente os comerciantes estabelecidos no estrangeiro, com licenças inclusive do Exército, podem importar revólveres. E Rômulo Maiorana não é comerciante estabelecido com autorização para fazer essa espécie de comércio. Sendo severamente controlada, a saída de armas só se torna possível nos Estados Unidos por meios clandestinos, isto é: o indivíduo compra essas armas clandestinamente. A verdade é que Rômulo Maiorana se tornou contrabandista de revólveres para o Brasil. Ali, naquele momento mesmo, disse-me que da partida trazida restavam apenas 53 revólveres que estavam à minha disposição pelo preço de 9 mil cruzeiros cada um. Respondi-lhe que o preço era muito alto. Iria passar um telegrama para determinada pessoa no Rio e no dia seguinte lhe comunicaria minha decisão.
        A verdade, leitores, é que Belém foi inundada de revólveres. Podia-se comprar uma arma nas calçadas dos hotéis, no bar, na rua, com o conhecimento da Polícia, que nenhuma providência tomou, embora sabendo quem os tinha trazido e quem os estava vendendo.
        Mais tarde, certo amigo meu que me prestava informações contou a história dos revólveres com mais detalhes. Quem inaugurou o contrabando desse tipo de arma no Pará foi o agente da Real-Aerovias, o jovem Salgado. “Dificilmente – disse o meu amigo – ele se deixou convencer de que devia fazer o negócio. Mas a insistência dos meus amigos foi grande e Salgado não resistiu. Tinha medo, mas acabou criando coragem”. E contou-me como se procede o desembarque dos revólveres: “O avião internacional aterra em Val-de-Cãs e, quando chega ao fim da pista, justamente no momento de fazer a curva e taxiar rumo à estação de passageiros, o comandante, que sabe da história e ganha a sua parte, acelera os motores do aparelho, que já está com a portinhola aberta. Nessa ocasião, a aero-môça, que também faz parte da quadrilha, tem apenas o trabalho de empurrar com um dos pés o caixote com 100 ou 200 revólveres. Ninguém ouve o barulho do choque da caixa com o solo por causa do ronco dos motores. Dentro do mato estão escondidos os homens encarregados de transportar os pequenos volumes para um jipe, que some na estrada que vai para a cidade”.
        Desse modo ficam os leitores sabendo que em Belém até o colunista social é contrabandista; que até um alto funcionário da Real-Aerovias vive fora da lei, sem precisar disso. Por tais motivos, quando a empresa resolveu, em novembro último, transferi-lo para Recife, vários comerciantes da capital do Pará enviaram ao presidente do Consórcio um abaixo-assinado, pedindo a permanência de Salgado ali. Quando li esse abaixo assinado nos jornais, compreendi logo o que havia.

GUERRA SUJA – Fragmentos das reportagens


         Acima, fragmentos da série de reportagens de José Leal, com fotos de Indayassu Leite, publicadas por O Globo, em 1957, e reproduzidas pela Folha do Norte, sobre o contrabando no Pará.