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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

ELEIÇÕES – O Ibope e as suspeitas de manipulação

        Pode ser que as projeções feitas realmente traduzam as eventuais inclinações do eleitorado. Mas diante dos antecedentes, registrados em passado recente, soa inevitável o ceticismo com o qual foi recebida a mais recente pesquisa de intenção de voto do Ibope, o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, sobre a disputa pela Prefeitura de Belém. Sem nenhum fato relevante capaz de justificar ascensão colossal ou queda vertiginosa de qualquer dos candidatos, esse recorrente cambalacho robustece as suspeitas de tentativa de manipulação, o que aparentemente volta a ocorrer agora.
        A mais recente pesquisa do Ibope aponta uma suposta queda de nove pontos do deputado Edmilson Rodrigues (foto), do PSol, que postula um terceiro mandato como prefeito de Belém, depois de ter sido eleito e reeleito como tal, quando ainda no PT. Ao mesmo tempo, inexplicavelmente o deputado federal Zenaldo Coutinho, o candidato a prefeito de Belém pelo PSDB, teria subido oito pontos. Edmilson teria desabado de 47% das intenções de voto para 38%. Zenaldo, etiquetado de Zeraldo, devido seu opaco desempenho na Câmara dos Deputados, supostamente passou de 16% para 20%, em termos de intenção de voto. De acordo com a pesquisa do Ibope, o deputado federal José Priante, o candidato a prefeito de Belém pelo PMDB, teria ficado patinando em 16%, sendo superado justamente por Zenaldo, o Zeraldo.
        Como em 2008, mais uma vez o Ibope terceirizou suas pesquisas no Pará, valendo-se do Ibope Inteligência, contratado pela TV Liberal. Na pesquisa sobre intenção de votos em Belém, cuja margem de erro é de quatro pontos percentuais, para mais ou para menos, o Ibope Inteligência ouviu 602 eleitores.

ELEIÇÕES – Quando o passado condena

        As suspeitas de tentativa de manipulação do eleitorado, pelo Ibope Inteligência, têm sua razão de ser. Nas eleições para prefeito de Belém em 2008, pelas pesquisas do Ibope Inteligência, a candidata do DEM, a ex-vice-governadora Valéria Vinagre Pires Franco, supostamente liderava, absoluta, a disputa. Apenas na derradeira pesquisa, anterior ao primeiro turno, ela foi superada por Duciomar Costa, do PTB, o nefasto Dudu, o prefeito no exercício do mandato e postulando a reeleição. Apurados os votos, Dudu e José Priante passaram para o segundo turno, deixando Valéria Vinagre Pires Franco para trás. Mais constrangedor foi a candidata do DEM, que fez a mais rica campanha, ficar em quarto lugar, superada pelo deputado Arnaldo Jordy, do PPS, que acabou em terceiro lugar, apesar de ter feito uma campanha com minguados recursos.
        Mas o que esperar de um grupo de comunicação capaz, por exemplo, de fraudar os números fornecidos ao IVC, o Instituto Verificador de Circulação? Até então os números fornecidos ao IVC, atestavam a suposta liderança de O Liberal, o principal jornal das ORM, as Organizações Romulo Maiorana, que incluem a TV Liberal, afiliada da TV Globo. Diante das evidências da fraude, o IVC preparava-se para fazer uma auditoria em O Liberal. Um vexame abortado, com o desligamento do jornal dos Maiorana do instituto. Sabe-se, hoje, que o Diário do Pará, o jornal do grupo de comunicação da família do senador e ex-governador Jader Barbalho, superou, em vendagem, O Liberal. O morubixaba do PMDB no Pará, Jader Barbalho é inimigo figadal dos Maiorana.

ELEIÇÕES – A compulsão pela manipulação

        A compulsão pela tentativa de manipulação da opinião pública parece ser o denominador comum entre as distintas gerações dos Maiorana. Um ex-contrabandista, que também obteve êxito como lojista, Romulo Maiorana (foto), já como um bem-sucedido empresário da comunicação, tratou de depurar sua biografia, dela defenestrando as passagens eventualmente pouco edificantes. O que não conseguiu livrá-lo da suspeita de integrar uma quadrilha que manipulava os resultados dos jogos da Loteria Esportiva.
        Nas eleições de 1982, até por imposição do regime militar, junto ao qual conseguira a concessão da canal 7, da TV Liberal, o patriarca dos Maiorana atrelou o jornal O Liberal a campanha do empresário Oziel Carneiro. Este foi o candidato a governador pelo PDS, o Partido Democrático Social, sucedâneo da Arena, a Aliança Renovadora Nacional, como legenda de sustentação parlamentar da ditadura militar. Incorporou-se ao folclore político do Pará a apuração paralela, repercutida por O Liberal e pela qual Oziel Carneiro mantinha-se a frente de Jader Barbalho, embora os números do TRE, o Tribunal Regional Eleitoral, sinalizassem a vitória do candidato do PMDB.
        Nas eleições de 1990, Romulo Maiorana já havia morrido, vítima de um câncer devastador. Mas novamente O Liberal alinhou-se despudoradamente com a candidatura a governador de Sahid Xerfan, do PTB, um próspero lojista, que antes fora eleito, pelo voto direto, prefeito de Belém. Apesar de ter o apoio do então governador Hélio Gueiros e contar com o endosso dos Maiorana, Xerfan acabou derrotado por Jader Barbalho. Foi assim que o morubixaba do PMDB no Pará obteve seu segundo mandato como governador.
        A bonança, para a nova geração dos Maiorana, veio com a eleição para governador, pelo PSDB, do ex-prefeito de Belém e ex-senador Almir Gabriel. Nos dois mandatos consecutivos de Almir Gabriel e no primeiro mandato de Simão Jatene como governador, o grupo de comunicação dos Maiorana deteve a fatia do leão da publicidade oficial. Além de um caricato convênio, pelo qual a Funtelpa, a Fundação de Telecomunicações do Pará, pagava para ceder suas retransmissoras à TV Liberal. A vitória da petista Ana Júlia Carepa sobre Almir Gabriel, em 2006, na esteira de uma engenharia política articulada por Jader Barbalho, reequilibrou a correlação de forças, obrigando os Maiorana a dividirem com os Barbalho as benesses do poder. A aliança de Simão Jatene com o senador Jader Barbalho explica a postura ambivalente, em relação ao atual governador, de Romulo Maiorana Júnior, o Rominho, presidente executivo das ORM.

ELEIÇÕES – A leniência da Justiça Eleitoral

        De tão óbvias que costumam ser as tentativas de manipulação das pesquisas de intenção de voto, perdura à espera de uma resposta convincente a pergunta que não quer calar: o que falta para a Justiça Eleitoral entrar em cena e coibir a má-fé?
        Não faltam, no Pará, profissionais idôneos, que poderiam orientar o TRE sobre como identificar o cambalacho travestido de pesquisa de intenção de voto.