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quinta-feira, 26 de março de 2015

TEATRO - Cacá Carvalho, um corpo que fala

Cacá Carvalho, em O Homem do Subsolo: fartos elogios da jornalista...
...Elisabete Pacheco (com Jô Soares) no jornal Em Pauta, da GloboNews.

No jornal Em Pauta, da GloboNews, a jornalista Elisabete Pacheco fez caudalosos elogios a Cacá Carvalho, engrossando o coro de aplausos da crítica teatral ao premiado ator e diretor paraense, por seu exuberante desempenho no monólogo 2+2=5 - O Homem do Subsolo. Inspirada no livro de Dostoiévsk Memórias do Subsolo, a peça exibe Cacá Carvalho na pele de um homem cínico e amargurado, que abandona o convívio social e, afastado de tudo, critica aspectos como o positivismo e a racionalidade.
Elisabete Pacheco, que é comentarista cultural do Em Pauta, sublinhou o reconhecido talento de Cacá Carvalho, acentuando sua expressão corporal, o que faz dele, na definição da jornalista, um corpo que fala. Isso torna a peça - em cartaz em São Paulo, com direção de Roberto Bacci e texto de Stefano Geracci - um programa obrigatório para quem preza o bem teatro, ainda segundo Elisabete Pacheco.


TEATRO – O mergulho produtivo no subsolo

Cacá Carvalho e o desafio de "mergulhar produtivamente no subsolo".

Recebido pela crítica especializada com fartos elogios, a estréia do monólogo 2+2= 5 - O Homem do Subsolo, justificou uma entrevista de Dirceu Alves Júnior, que mantém o BLOG DO DIRCEU Na Plateia, com Cacá Carvalho, que desfila seu mapa de crenças como cidadão do mundo e homem de teatro, cuja bússola é a inquietação diante de um status quo pontuado por iniquidades. "Nesse mundo 2+2=4, existe uma necessidade outra,  de andar contra isso. Vivemos neste sistema e não somos os proprietários, obedecemos. Tudo funciona e não nos realiza. Então 2+2=5 pode ser uma outra possibilidade, diferente, em que o individuo tenha a liberdade de se afirmar com todas as suas vontades pessoais de fato, que, muitas vezes, não se adequam dentro do sistema estabelecido. São tantos os sistemas, tudo pensado para funcionar, estruturado, para dar certo. Queremos escapar e afirmar uma outra coisa. Então, 2+2=5 e isso é importante”, salienta Cacá na entrevista. "O homem do subsolo é um sujeito que está no subsolo, vivendo essa realidade, gritando, clamando, rindo, ali contra o mundo está em cima dele, do qual ele foge. Mas na esperança de que estando lá embaixo, ele possa sair de lá melhor. Eu acho que é esse sempre o grande propósito de mergulhar produtivamente no subsolo”, acrescenta.
A entrevista, abaixo transcrita, também pode ser acessada pelo seguinte link:


Cacá Carvalho e suas reflexões do subsolo: “o protagonista é aquele que tenta se afirmar e não se afirmar como povo”

O Macunaíma de Antunes Filho, o Jamanta das duas novelas de Silvio de Abreu ou o Sganarelo, criado do Don Juan vivido por Edson Celulari. O ator paraense Cacá Carvalho, de 61 anos, é um artista diferente, quase estranho. Ele está em cartaz no Sesc Santo Amarocom o monólogo dramático “2 x 2 = 5 O Homem do Subsolo”, escrito por Stefano Geracci com base na novela “Memórias do Subsolo”, de Fiódor Dostoiévski. Surpreendente, lúcido e pontual, Cacá Carvalho deu um instigante depoimento para o blog. As perguntas foram lançadas, serviram de base. Talvez elas tenham perdido um pouco o sentimento. Importante mesmo são as respostas do artista.

Um momento de desencanto 

“O homem do subsolo espelha a nossa realidade de hoje, mas também a realidade do homem desde sempre. Você afirma que vivemos um momento de desencanto no Brasil. Sim, mas, no geral, o homem enfrenta sempre um momento de desencanto, na expectativa de um breve encantamento. O homem do subsolo é um sujeito que está no subsolo, vivendo essa realidade, gritando, clamando, rindo, ali contra o mundo está em cima dele, do qual ele foge. Mas na esperança de que estando lá embaixo, ele possa sair de lá melhor. Eu acho que é esse sempre o grande propósito de mergulhar produtivamente no subsolo.”

2 X 2 = 4?

“Vivemos em um mundo em que o indivíduo é o protagonista do espetáculo do viver. Não é mais o coletivo, o povo. O povo não é o protagonista. O protagonista é aquele que tenta se afirmar e não se afirmar como povo. Não se pensa o coletivo, porque talvez ele não esteja de acordo com o sistema criado, 2 x 2=4, tudo tem que funcionar corretamente. 2 x 2=4, tudo é pensado, calculado para dar certo. 2 x 2=4, este mundo em que o bem-estar, a felicidade e a paz são os nossos propósitos, esse mundo que nós vivemos da autoajuda, esse mundo do tapinha nas costas, do aparente compartilhar coletivo, através de mensagens, uma realidade inexistente, criada. Nesse mundo 2 x 2=4, existe uma necessidade outra, de andar contra isso. Vivemos neste sistema e não somos os proprietários, obedecemos. Tudo funciona e não nos realiza. Então 2 x 2=5 pode ser uma outra possibilidade, diferente, em que o individuo tenha a liberdade de se afirmar com todas as suas vontades pessoais de fato, que, muitas vezes, não se adequam dentro do sistema estabelecido. São tantos os sistemas, tudo pensado para funcionar, estruturado, para dar certo. Queremos escapar e afirmar uma outra coisa. Então, 2×2=5 e isso é importante.”

Combustível do teatro

“Não sei se a literatura romanceada é a melhor forma de abastecer o teatro. É uma das fontes possíveis. O teatro pode vir de tantas fontes, uma delas é a literatura. Um pôr do sol também pode ser uma fonte para o ator, para gerar o fato teatral.  Eu sinto que existe uma grande dificuldade e é clara: fazer a transposição da literatura, tanto em forma de romance, conto ou peça para o teatro. É uma outra coisa, o teatro é uma relação em que a literatura teatral, o romance, o conto ou uma fotografia foram motores para o fim. A coisa acontece entre o espectador e aquele que está se fazendo ver. Nesse sentido, qualquer fonte é válida, conhecida ou não, desde que funcione ali, diante do público.”


Trabalho em equipe

“Estamos juntos há tanto tempo. Somos eu, Stefano Geraci, Roberto Bacci, Márcio Medina, Fabio Retti, Ares Tavolazzi e mais equipe de produção no Brasil e outra em Pontedera, na Itália. Esse núcleo já fez muitos trabalhos, então, como é manter?  Nós nos mantemos juntos, estando separados, mas conectados. Sempre com uma vontade de se encontrar. E o que a gente faz? Quando nós nos reunimos, vem essa pergunta: o que a gente está precisando criar agora? Para quem? Quem será o outro parceiro? No caso, um tema, um livro, uma imagem que alguém viu ou um filme dá a largada. Logo, aparecem ou não caminhos que não sei exatamente como, depende da situação. E assim vai aparecendo. Livros, filmes já vistos, sonhos sonhados. Agora, eu insisto com um texto brasileiro, mas talvez para daqui uns dois ou três anos. Não sei se é mais fácil. Acho que não, tudo é difícil, qualquer grupo de pessoas trabalhando, pesquisando é árduo, mas tem que ser prazeroso.”

Só na multidão

“É uma vontade de trabalhar com o grupo e, paradoxalmente, estou sozinho em cena, mas tem muita gente junto ali comigo, direta ou indiretamente. Essa minha vontade vem de muito tempo, sou uma pessoa que trabalha em conjunto, desde Belém, de onde vim, depois com o Antunes Filho, que é fundamental na minha vida, no meu hoje, no meu ontem. Todo mundo que encontro, grupos como o Galpão, por exemplo, atores da Casa Laboratório para as Artes do Teatro, todos com os quais já trabalhei, que são companhias formadas para seguirem contaminando outros e continuar uma contaminação de pensamento e de fazer teatral. Essa vontade de saber a ideia do outro, de saber o que está por trás dessa aparência, do aparente conhecimento dos outros, gosto muito disso. Eu preciso do outro, sempre.”

Por uma criatividade mais tranqüila

“Eu sozinho? Não ando só. Tenho uma vontade danada de botar mais gente em cena comigo. Sinto muita falta, mas não tenho estrutura para tal. É difícil viabilizar, conseguir apoios, patrocínios, com as leis, esses mecanismos que existem hoje. Essas verbas conseguidas através de apoios são pensadas para que encontremos momentos de calma às vezes. Para uma criatividade tranquila, sabe? Eu não consigo, não tenho muito essa sorte. E não sei dizer a razão, o porquê e não quero entrar numa lástima, mas é um fato e vamos em frente. Às vezes, eu até consigo, porém pouco. Temos ainda bem, vários grupos e companheiros de teatro numa luta incessante para manter os espaços e grupos de resistência numa cidade como São Paulo. Há de melhorar! Somos vários tentando se afirmar como resistência cada vez mais. Esse lado me dá força porque eu tenho que fazer do meu trabalho um cavalo de batalha, levá-lo por lugares que ainda não fui ou refazê-los em lugares já passados, pois o público se renova, o tempo passa e as pessoas crescem. Preciso retrabalhar o trabalho, fazer com que ele cresça comigo e eu cresça com ele.”

Uma experiência rara

“Nesses tempos, não basta afirmar que uma pessoa faz teatro. É preciso perguntar qual tipo de teatro. Teatro é  plural. Existe o comercial, o experimental, o aparente comercial e o aparente experimental. Temos o infantil bom e o infantil ruim, assim como o adulto bom e o adulto ruim. Qualquer trabalho tem dificuldade para atingir uma plateia e se manter em cartaz. Qualquer produto que se apresenta a um público precisa, antes de mais nada, ter qualidade e relação com o espectador. Para que a plateia atingida, crie aquele fenômeno antigo, o boca a boca. Sempre foi assim. É difícil levar alguém ao teatro, hoje são tantas as ofertas de programas. Por isso, talvez o oxigênio seja essa necessidade que considero fundamental, de contaminar de beleza quem está ali, sentado na minha frente. Quero descortinar um outro horizonte diante do espectador e fazê-lo viver uma experiência rara.”

O trabalho dentro e fora do Brasil

“A minha experiência colaborativa com a italiana Fondazione Pontedera dura 27 anos. Tenho uma regularidade de apresentações para cumprir e me faz muito bem fazê-las, mas a minha base é São Paulo, na Casa Laboratório para as Artes do Teatro, que fica na Barra Funda. Um território que precisa, como tantos em São Paulo, se afirmar e ser garantido. Por ano, uma ou duas vezes, preciso fazer essas temporada na Itália e em outros lugares. Os meus espetáculos todos são produzidos por Pontedera e o Teatro della Toscana. O “2×2=5 – O Homem do Subsolo” é o primeiro produzido por essa nova sociedade em que a Fondazione Pontedera juntou-se ao tradicional Teatro La Pergola de Firenze e tornaram-se, esse novo projeto, que é o primeiro Teatro Nacional Italiano na região Toscana, batizado de Teatro della Toscana. Para mim, isso tem um peso e um reconhecimento muito grande. Preciso cumprir uma série de temporadas que Roberto Bacci, meu diretor e mestre, agenda. Num primeiro momento, eu vou ao Festival de Almada, em Portugal, e, no final do ano, temos um temporada de inverno, iniciando em Florença, no Teatro Goldoni e, depois uma série de cidades da região da Toscana. Até lá, eu quero circular bastante pelo Brasil, fazer os meus encontros com jovens artistas, encontrar gente em várias cidades.”

A televisão 

“Televisão, caso algum raro convite apareça, evidentemente alteraria meus projetos. É um ingrediente novo na rotina e é estimulante. Eu gosto muito de fazer, dá um frio na barriga diferente, porque a minha ignorância com a linguagem de interpretação na televisão é tamanha que eu preciso muito mais de parceiros para me explicar para qual lado eu devo ir. Não é fácil criar uma coisa ali. Não fossem todas as ajudas que sempre tive, tudo seria muito, muito mais difícil. O texto do Silvio de Abreu e a direção de Denise Saraceni me ajudaram muito, muito. O meu encontro com o Luiz Fernando Carvalho no trabalho que fizemos sobre Ariano Suassuna foi ótimo. Poderia citar uma equipe de parceiros malucos.”

Jamanta, com muito prazer 

“A televisão tem uma repercussão macro. Hoje, me dá muito prazer, depois de tantos anos, quando eu estou esquecido de mim mesmo, perceber uma pessoa me olhando, abrindo um sorriso diferente e falando: 'ah… é você!'. Ah, aquele 'você' vem com uma saudade de si mesmo, sabe? Vem como se a pessoa ao dizer aquilo, ao sorrir daquele modo, esteja vendo a si mesmo anos atrás e isso me dá um prazer muito grande, porque é como se o nosso trabalho, da equipe toda que produziu aquelas cenas, não acabasse ou morresse. Está vivo dentro da memória daquela pessoa. Eu não sei se televisão 'combina' com as minhas ambições. Na verdade, eu não tenho ambição profissional. Nesse sentido, eu sou muito amador. Tenho ambições amadoras, de quem ama. Nem sei se trato meu trabalho tão profissionalmente. Se eu trato, preciso me corrigir. A minha profissão e a de todos artistas é amadora, no melhor sentido da palavra ‘amadora’.”

sábado, 16 de julho de 2011

PARÁ – A reflexão de Cacá Carvalho 1

Um eterno apaixonado pelo Pará e sua gente, aos quais se revela atado pelos indissolúveis laços do amor, o premiado diretor e ator teatral Cacá Carvalho (foto), mesmo à distância, em São Paulo, não deixa de cultivar suas raízes, como bom paraense que é. Por isso, tomando como deixa a postagem sobre o imbróglio envolvendo a posse como senador eleito do ex-governador Jader Barbalho, Cacá faz uma oportuna reflexão sobre as mazelas do Estado, a partir de um texto de Guerra Junqueiro. Uma reflexão permeada pela indignação de quem cultiva apaixonadamente suas raízes, mas repele o êxtase improdutivo, que pavimenta o imobilismo, do qual se alimenta o atraso.
Uma indignação com sagacidade que só o talento confere e que merece ser compartilhada.

Meu caro Barata,

Divido com você e com todos os leitores, que como eu ,refletimos e nos revemos refletidos com suas denuncias e revelações. Este texto que li, escrito em 1896, fala de um Portugal estagnado. Me espelha, me revela e me incomoda. Que nos sirva.

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
“[.] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverossímeis no Limoeiro.
“Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
“A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
“Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896.

Bem tornado.
Há Braços

Cacá Carvalho.

PARÁ – A reflexão de Cacá Carvalho 2

Em seu post scriptum, Cacá Carvalho, expressa, eloquente e apaixonadamente, a inquietação diante do caos com o qual nos deparamos.

Barata,

Continuando meu comentário precedente. Não diz respeito necessariamente ao post sobre o senhor Jader Barbalho. É sobre uma ânsia, uma angustia que o todo, a visão do panorama, esse conjunto de vergonhas, o olhar que vai parando e se perdendo a medida que a realidade se clareia.... Para onde foram os sonhos? O texto do Junqueira é sobre mais além. Mais do que tudo isso que também acontece no nosso Pará.

Cacá Carvalho

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

CACÁ CARVALHO – As ternas palavras de estímulo

Por conta dos problemas de saúde que obrigaram-me a suspender as atualizações do blog, entre o final do ano passado e o início deste ano, acabei também por deixar de registrar, agradecer e retribuir, com a ênfase que ele faz por merecer, as ternas palavras de estímulo de Cacá Carvalho (foto), o ator e diretor paraense sobre cujo talento é pleonástico falar. Enternece, em Cacá, não só a inteligência, potencializada pela sensibilidade, mas particularmente os laços de amor que o atam indissoluvelmente ao Pará, em uma sintonia apaixonada, para a qual contribui, para meu orgulho, este blog.
Foi assim, em uma satisfação compartilhada com todos aqueles que acessam o blog, que fui entrevendo, a cada intervenção, a doce e sedutora pessoa que é Cacá Carvalho, para além do ator e diretor de reconhecido talento. Foi assim que, ainda que sem conhecê-lo pessoalmente, aprendi a ter admiração e respeito pelo cidadão que ele é também. Um cidadão tanto mais especial, porque, como o poeta, carrega consigo, com a humildade que só a sensibilidade é capaz de conceder, os sentimentos do mundo. E, em especial, um comovente amor pelo próximo e um sentimento de justiça, capazes de renovar a fé na generosidade humana.
Pelo carinho nelas embutido, Cacá certamente não mensura a repercussão das suas palavras, no alento que elas representam. Por isso, meu comovido agradecimento pelo terno e generoso estímulo de Cacá. Um agradecimento que faço com atraso, mas nem por isso com menor admiração e respeito. Com o sincero desejo de que 2011 reserve-lhe paz, saúde e sucesso. E que o bobo de Clarice Lispector, do qual serviu-se em sua generosa alegoria, esteja em cada um de nós, diante do desafio de transformar sonhos em realidade, o que exige a coragem de ousar. Ousar lutar, ousar vencer.

CACÁ CARVALHO – A mensagem

Das vantagens de ser BOBO

(Clarice Lispector)

- O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.
- O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
- Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
- O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.
- Os "espertos" estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.
- O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.
- O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoievski!.
- Há desvantagem, obviamente: Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
- Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o "esperto" não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
- O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.
- Aviso: não confundir bobos com burros!!!
- Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera... É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?"
- Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
- Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
- Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
- O bobo é sempre tão simpático que há "espertos" que se fazem passar por bobos.
- Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os "espertos" não conseguem passar por bobos.
- Os "espertos" ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.
- Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
- Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil !!). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
- Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cimas das casas!!!
- É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo!

Barata, que em 2011 você continue sendo esse importante e generoso "bobo".
Bom ano, Cacá Carvalho.
31 de dezembro de 2010 17:03

No complemento, Cacá acrescenta:

Barata, por diversas razões gostaria de te enviar o texto da Clarice na íntegra...mas o Google não autoriza, nº. de toques etc.. De verdade, cara, que a pilha da tua lanterna esteja sempre acesa e voltada para o escuro das tramóias que muitos não veem. Que em 2011 "eles" não joguem muita água suja, no açaí que a gente gosta!
Há Braços
do Cacá Carvalho.
31 de dezembro de 2010 17:13