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terça-feira, 16 de julho de 2013

O DIA SEGUINTE – E agora José?


O DIA SEGUINTE – O contexto histórico



        A charge de Jaguar (foto), que abre esta edição do Blog do Barata, foi inspirada em poema de Carlos Drummond de Andrade e publicada em O Pasquim, em agosto de 1970, ano da conquista do tricampeonato mundial de futebol pela Seleção Brasileira, ocorrida no alvorecer dos anos de chumbo da ditadura militar. O regime dos generais, que se estendeu de 1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985, levou ao paroxismo suas repulsivas iniquidades a partir da edição do famigerado AI-5, o Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, que varreu de cena os eventuais vestígios de democracia que sobreviveram ao golpe militar de 1º de abril de 1964.

        A charge, conjugada a fragmento do poema de Carlos Drummond de Andrade, perdura atual, atualíssima. Tanto quanto a presunção dos poderosos de plantão de que podem entorpecer as massas diante das gritantes injustiças sociais, valendo-se para tanto do ufanismo futebolístico. Foi assim em 1970, na esteira da Copa do Mundo disputada no México. Um logro que os petralhas abrigados no Palácio do Planalto, no rastro do restabelecimento da democracia no Brasil, pretenderam repetir, sem sucesso, a pretexto da Copa das Confederações, realizada este ano no Brasil. As vozes das ruas falaram mais alto, como evidenciaram as massas que tomaram as capitais do País, espontaneamente, à margem de partidos políticos e sindicatos, cobrando educação, saúde, justiça social e ética na condução da gestão pública. 

O DIA SEGUINTE – Drummond quase é preso



        “Esta ilustração que fiz para os versos de Carlos Drummond de Andrade (foto) quase provocou a prisão do poeta”, recordou mais recentemente Jaguar.

        “Tive um trabalho danado para convencer o general de censura que publiquei o desenho sem pedir autorização do poeta”, acrescentou o chargista, ao rememorar o episódio.

O DIA SEGUINTE – O poema que inspirou a charge


José


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!

José, para onde?