A repulsiva indiferença, alimentada pela falta de sensibilidade, diante do sofrimento das crianças de famílias de baixa renda portadoras de câncer, algumas mutiladas em conseqüência da doença, e da dor dos seus pais ou responsáveis, empenhados em garantir a vida, ou pelo menos a sobrevida, dos seus meninos e meninas.
Assim pode ser descrita, resumidamente, a lambança patrocinada na manhã desta última quarta-feira, 30, pela AVAO, a Associação Voluntária de Apoio à Oncologia, cuja finalidade é dar apoio assistencial a pacientes com câncer em tratamento no Hospital Ophir Loyola. Desde as 7h30 da manhã formou-se uma extensa fila de crianças com câncer, algumas até em cadeira de rodas, para um passeio de lazer, em ônibus cedido pelo Corpo de Bombeiros, com saída em frente a sede da AVAO, na travessa 14 de Abril, entre as avenidas Magalhães Barata e Gentil Bittencourt. O ônibus, diga-se, é certamente adequado para conduzir parcela do contingente em serviço da corporação, mas jamais pacientes infantis, de uma enfermidade que costuma ser letal, e cujo tratamento fragiliza tanto quanto a própria doença.
Sob sol e calor, as crianças enfermas permaneceram na fila, até 9h22, quando então foram abrigadas no ônibus, que só saiu cerca de 10 minutos depois. Mais cruel, impossível, ainda que a intenção possa ter sido, como certamente foi, a melhor possível. Mas como o caminho para o inferno é pavimentado de boas intenções, conforme ensina a sabedoria popular, conviria aos dirigentes da AVAO, em circunstâncias análogas, ter a preocupação de não agravar o sofrimento dos pequenos pacientes de câncer, já suficientemente penalizados – primeiro porque suas famílias patinam entre a pobreza e a miséria pura e simples, depois porque padecem de uma doença devastadora, cujo sofrimento acaba por ser potencializado pelo próprio tratamento. De resto, mesmo admitindo – para efeito de raciocínio, e somente para efeito de raciocínio – eventuais problemas de caixa, os dirigentes da AVAO, para além dos seus méritos pelo trabalho desenvolvido, são figuras públicas, reconhecidas, independentemente de qualquer coisa, pelo seu próprio status social. E por isso com inserção capaz de viabilizar um lazer em condições mais condignas para os pequenos pacientes do Hospital Ophir Loyola.
O tratamento dispensado pelos dirigentes da AVAO a estes pacientes, no episódio desta última quarta-feira, soa ultrajante, para dizer o mínimo. Ainda que a intenção não tenha sido esta. Afinal, quem dá o resto, não dá. A filantropia e o voluntariado não desobrigam ninguém ao respeito aos mais elementares princípios de dignidade humana. Sobretudo quando o objeto da eventual mobilização são crianças. Crianças pobres e doentes. Gravemente doentes.