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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

SAUDADES – O adeus a Hamilton e Lúcia

Comecei 2012 defrontando-me com duas notícias que jamais gostaria de ter recebido - a morte de Hamilton Bandeira e Lúcia Conte (na foto, quando ainda jovem). Trafegando em universos distintos, ambos se incluem no seleto elenco daquelas pessoas especiais, muito especiais, que a vida, de forma escandalosamente generosa, às vezes coloca no nosso caminho. Hamilton, de cuja morte só vim a saber nesta terça-feira, 3, deixou-nos sexta-feira, 30 de dezembro de 2011, aos 63 anos, e foi sepultado domingo, 1º de janeiro de 2012. Vítima de um AVC, acidente vascular cerebral, Lúcia faleceu nesta terça-feira, aos 55 anos, sendo velada na capela do Pão de Santo Antônio e sepultada no cemitério de Santa Izabel.
O denominador comum entre Hamilton e Lúcia, além do refinamento intelectual e do gosto pela boemia, foi a generosidade não só material, mas sobretudo afetiva e intelectual. Aquele tipo de generosidade que faz de alguns poucos paradigmas de pessoas visceralmente boas e que, por isso, legam lembranças indeléveis a todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-los.
Ambos, Hamilton e Lúcia, são pessoas cuja ausência física vai fazer falta. Mas que, por suas virtudes, são lembranças indeléveis para quem teve o prazer de conhecê-los menos superficialmente.

SAUDADES – Perfil do artista

O terceiro dos quatro irmãos Bandeira Gonçalves, Hamilton sucedia os saudosos Walter e Euclides, o Chembra, e precedia a terna e saudosa Lúcia. Walter Bandeira, que exibia um talento multifacetado, foi e continuará sendo, para todo o sempre, a grande voz do Pará, na feliz e justa definição de Fafá de Belém. Chembra fez carreira como um dos mais brilhantes jornalistas de sua geração, em A Província do Pará, do qual tornou-se redator-chefe, pouco antes do jornal, um título histórico, iniciar sua decadência, no rastro do colapso dos Diários e Emissoras Associados, um conglomerado de empresas de comunicação que incluía a extinta TV Tupi, da qual a afiliada no Pará era a TV Marajoara e cuja concessão acabou cassada no governo João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar, que tomou de assalto o poder em 1964, com a deposição do ex-presidente João Goulart, o Jango. Lúcia, uma promissora revelação como jornalista, optou por fazer carreira no serviço público, abrupta e prematuramente interrompida pelo câncer, que dela nos privou.
Quanto a Hamilton, um artista gráfico de mão cheia, jovem, bem jovem, ele ganharia visibilidade como um dos autores do curta-metragem “O Círio”, ao lado do irmão Chembra e dos irmãos Ademir e Miracy Silva. Ademir se inclui dentre os mais competentes repórteres fotográficos da sua geração, com destacada passagem por A Província do Pará, antes de deixar Belém e fazer carreira no cinema, nos Estados Unidos. Miracy, um homem culto, seguiu como servidor público, na Celpa, as Centrais Elétricas do Pará, privatizada no primeiro mandato do ex-governador Almir Gabriel, então no PSDB, de 1995 a 1998, por um valor tão questionado quanto o emprego do dinheiro auferido. “O Círio” figura no portfolio do Instituto Nacional do Cinema, um órgão gestor do cinema brasileiro, criado em 1966 e extinto em 1975.  Elegante nos modos e no trajar, dentro do seu estilo despojado, Hamilton revelou-se um profissional gráfico da melhor qualidade, que migrou para o Rio de Janeiro, mas cuja carreira não decolou, por conta das intempéries da vida. Seu talento, como artista gráfico, foi celebrizado nas cartas endereçadas à família, que ele formatava como se fossem pequenos jornais. Se nossas autoridades da área cultural tivessem um mínimo de sensibilidade, bem que poderiam tentar obter da família as missivas de Hamilton, seja por seu aspecto lúdico, seja como testemunho de uma época, correspondente aos anos de chumbo do regime dos generais.

SAUDADES – A jovem e culta empreendedora

Já Lúcia Conte foi a única filha do segundo casamento do saudoso doutor Rosário Conte, um dos nomes que honram a medicina do Pará e que, viúvo, casou-se com dona Irene, esposa, madrasta, mãe e avó desvelada, até onde a saúde assim permitiu. Bacharel em direito pela UFPA, a Universidade Federal do Pará, Lúcia tornou-se uma bem-sucedida representante comercial, obviamente mirando na independência financeira. Isso após acumular experiência trabalhando para Alfredo Pinheiro, pai de Cléa Pinheiro, que para ela foi, mais do que amiga, uma irmã, que reproduz a dignidade e generosidade dos pais, Maria Clara e Alfredo, já falecidos.
Para quem não cultiva a virtude dos matizes, Lúcia Conte certamente surpreendia. Como intuir que uma bem-sucedida representante comercial tivesse a preocupação de cultivar uma formação humanística, embora transitando com desenvoltura em um segmento no qual preocupações intelectuais costumam ser menosprezadas? Surpreendente era também constatar que, embora irreverente, ela fosse capaz de comoventes rasgos de generosidade, afetiva e/ou materialmente.

SAUDADES – O privilégio da amizade

Na esteira da relação de Luiz Octávio Barata, meu saudoso e querido irmão, com o inesquecível Walter Bandeira, vim a conhecer Hamilton Bandeira, no final dos anos 70 do século passado, em uma das visitas que ele fez a Belém, depois de ter fixado residência no Rio de Janeiro. Mesmo sem sermos íntimos, passamos a ser interlocutor um do outro com bastante freqüência, em divertidas rodadas etílicas, que varavam a madrugada. O ponto de encontro era o banco da Praça da República, próximo da esquina da avenida Presidente Vargas com as rua da Paz, na calçada oposta a do Bar do Parque, bem antes da decadência deste. Do tal banco, pelo qual passava um exótico e variado elenco de personagens da noite, eram freqüentadores cativos os irmãos Euclides e Walter Bandeira, Luiz Octávio Barata, Guilherme Barra, Fernando Torres e Cícero Pinho, em torno dos quais orbitavam os demais freqüentadores. Em algumas ocasiões se agregava ao grupo Aurélio Leal Alves do Ó, contemporâneo e amigo incondicional de Luiz Octávio e Walter Bandeira, tratado pelos meus pais como um filho do coração, ao qual abrigaram, na casa da família, no alvorecer do golpe militar de 1º de abril de 1964, diante do temor de retaliações.  O "expediante" no banco costumava ter início após o fechamento da edição dos nossos principais jornais, O Liberal e A Província do Pará. Muitas vezes, depois que os demais batiam em retirada, eu e Hamilton, a pretexto de beber a “saideira”, amanhecíamos no "tabuleiro" do Bar do Parque, em longas conversas.
A roda-viva da vida se encarregou de afastar-me de Hamilton, até pela distância geográfica que nos separava – ele, no Rio, eu construindo minha vida em Belém. A ele reencontraria novamente em Belém, em fins de 1996, ou 1997, não recordo-me bem. O reencontro se deu no pátio interno do Palácio Antônio Lemos, assinalado por uma longa e franca conversa, na qual Hamilton, sem amarras, contou-me suas desditas, como refém dos excessos etílicos. Apesar do tema, particularmente doloroso, ele conseguiu fazer seu desabafo sem dramatizá-lo, de forma leve, com o carisma e senso de humor que faziam dele uma companhia para lá de prazerosa. Foi a última vez que nos vimos. Desde então, acompanhei a saga do terno amigo à distância, presumindo a dor dele se ver, inicialmente, sem a companhia de Lúcia, e depois perder Euclides e Walter. Dor maior, certamente, só a de dona Riso, a mãe dos irmãos Bandeira Gonçalves, a qual coube, pelo imponderável da vida, sepultar todos os filhos. Um golpe que ninguém merece, porque contraria a lógica da vida, pela qual o habitual é os filhos enterrarem os pais.
Diante do adeus de Hamilton Bandeira, principalmente pelas dolorosas circunstâncias que o procederam, é inevitável a lembrança do poeta:

“Esta vida é uma estranha hospedaria,
“onde se parte quase sempre às tontas.
“E nossas malas jamais estão prontas,
“e nossa conta nunca está em dia.”

SAUDADES – Uma comovente lição de vida

Quanto a Lúcia Conte, só vim a conhecer em 1980, através da minha ex-mulher, mãe dos meus filhos, que foi sua contemporânea de UFPA. Foi assim que nos conhecemos, apesar da sólida amizade que uniu nossos pais, Odmar Barata e Rosário Conte, ambos médicos respeitados, em uma época na qual o exercício da medicina ainda não fora contaminado pela mercantilização da saúde. Logo percebi que, atrás da aparente arrogância, uma espécie de anteparo diante dos preconceitos provincianos, abrigava-se uma pessoa visceralmente boa, que na intimidade revela-se comoventemente terna e generosa, afetiva e materialmente. Pela sua verve, Lúcia revela-se também uma companhia extremamente prazerosa e, por extensão, cativante. Não é difícil concluir, assim, a falta que ela fatalmente fará, diante da qual o alento é a lição de vida que oferece, como exemplo de pessoa visceralmente boa. Uma pessoa  tão comoventemente generosa que, ao longo de 30 anos, não tenho registro de vê-la vociferando contra qualquer eventual desafeto, a despeito da forte personalidade. Pelas mãos de Lúcia acabei por ter o prazer de conhecer Rosário Conte, seu meio-irmão, filho do primeiro casamento do doutor Rosário e que fez carreira em São Paulo, como professor universitário, especializado em cinema. No florescer da Nova República, que marcou a transição da ditadura militar para a redemocratização, precisei ir a São Paulo, para um encontro do PCB, o Partido Comunista Brasileiro, do qual, quando jovem, fui militante. Sem ter onde ficar, fui fraternalmente acolhido por Rosário, em uma tocante, e por isso inesquecível, manifestação de amizade, a despeito de não compartilhar, tal qual a própria Lúcia, do ideário comunista, que eu cheguei a professar, quando jovem.
O que aplaca a saudade diante da ausência física de Lúcia é a certeza de que ela, a seu modo, viveu intensamente. Dinheiro não lhe faltou para, por exemplo, construir um sólido patrimônio. Ou conhecer o mundo. Mas optou por cultivar suas raízes em Belém. E usufruir, sem remorsos, seu gosto pela boemia, que tanto prazer lhe proporcionava, embora sem permitir que isso viesse em detrimento de suas responsabilidades como representante comercial, o que explica sua reconhecida credibilidade profissional. Para quem ainda possa duvidar sobre o quanto Lúcia soube usufruir da vida, fiel ao seu mapa de crenças, convém citar Otto Lara Resende, ao questionar aqueles que não ousam e costumam fugir dos riscos, sem os quais nossa passagem por este mundo não vale a pena: “Mas onde está a vida dos que a depositaram na poupança?”
Por tudo isso, no silêncio das lágrimas saudosas, resta-me expressar a Lúcia, com o poder de permanência e convicção que embute a palavra escrita, o meu mais sincero desejo: descanse em paz, cara e terna amiga.