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quarta-feira, 30 de maio de 2012

APEP – Abandono ameaça acervo histórico

        Esta confirmada para a manhã desta quinta-feira, 31, a partir das 9h30, em frente ao APEP, o Arquivo Público do Estado do Pará (foto da fachada do prédio histórico), um ato público em defesa deste e do acervo histórico que abriga, dolosamente ignorados, ao longo de décadas, pelos eventuais inquilinos do poder, independentemente de legendas. Na ocasião será realizada a coleta de assinaturas para um abaixo-assinado cobrando providências diante das precárias condições em que se encontra o APEP. A manifestará terá a participação de um vasto leque de entidades e setores da sociedade civil.
        O ato público em defesa do APEP está a uma distância abissal de um factóide articulado por diletantes. O sucateamento do Arquivo Público é acintosamente inocultável e suscita o temor de uma tragédia anunciada, prestes a ser materializada. Na madrugada de 18 de maio, um curto-circuito ameaçou tornar cinzas mais de quatrocentos anos de memória da Amazônia. O prédio que hoje abriga o Arquivo Público foi construído em 1858 para ser a sede do Banco Comercial do Pará, constituindo-se em um importante monumento arquitetônico do estado. A função do APEP é a guarda de documentos produzidos pelo antigo Estado do Grão-Pará e Maranhão e, posteriormente, Estado do Grão-Pará e Rio Negro, data de 1894. Em 1901 foi criada a Biblioteca e Arquivo Público do Pará. Em 1986 a biblioteca e o arquivo se separaram, constituindo-se desde então em unidades autônomas.

APEP – O mais importante arquivo da Amazônia

        De acordo com os articuladores do ato público, ao longo de sua história, o APEP constituiu-se como o mais importante arquivo histórico da Amazônia e um dos mais destacados do Brasil. Em suas estantes estão cerca de quatro milhões de documentos, muitos em exemplares únicos, o que levou a Unesco – a organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura - a conceder ao Arquivo Público o selo Memória do Mundo, em reconhecimento ao seu importantíssimo valor histórico e cultural.
        Diariamente passam pela sala de pesquisa do Arquivo Público não apenas estudantes, professores e pesquisadores de história, mas, também, profissionais de outras áreas e pessoas buscando informações de caráter pessoal e familiar. “As informações guardadas em seu acervo são fundamentais para a construção do conhecimento histórico da Amazônia e a sua perda comprometeria, de forma irremediável, a memória da região”, assinalam os organizadores do ato público.

APEP – Uma tragédia anunciada

        “Lamentavelmente, a ameaça de incêndio recente que o APEP passou não foi um fato isolado”, relatam os articuladores da manifestação. De acordo com eles, durante o ano de 2011 pelo menos dois curtos-circuitos ocorreram no prédio que hoje abriga o Arquivo Público. Desde maio, acrescenta a denúncia dos organizadores do ato público, no entanto, os aparelhos de ar condicionado do Arquivo precisam ser desligados todas as noites, o que compromete a perfeita conservação documentação lá existente, que exige uma climatização adequada, através de condicionadores e desumidificadores de ar. “Tanto o prédio em que está sediado o Arquivo Público, quanto o seu entorno vivem em permanente perigo de incêndio, diante dos fios elétricos trespassados e descascados, ligações clandestinas de energia e ausência de uma política de manutenção e planejamento da rede de energia elétrica utilizada na área”, salienta ainda uma das fontes ouvidas pelo blog.
        “Não causa surpresa, aos que vivem o cotidiano do local, os frequentes estouros em disjuntores da própria rua em que se localiza o APEP e em suas adjacências”, prossegue a mesma fonte. “Para tornar mais caótico o cenário, ainda existem os carrinhos de comida na frente do Arquivo Público, que fazem uso de botijões de gás, furam as paredes do prédio para pregar lonas e são responsáveis pela produção de uma enorme quantidade de lixo, o qual, por sua vez, contribui para a entrada no Arquivo de ratos, baratas, lacraias e formigas”, acrescenta a fonte.

APEP – Indiferença criminosa

        De acordo com denúncia feita por uma servidora estadual lotada no Arquivo Público do Estado do Pará, Ethel Valentina Soares, amplamente divulgada em redes sociais, vários memorandos foram enviados à Secretaria de Cultura, em diferentes gestões do governo, sem que qualquer medida efetiva tenha sido tomada para pelo menos aplacar o sucateamento do APEP. A indiferença criminosa dos poderosos de plantão, independentemente de legendas, soa tanto mais ignominiosa porque pelo Arquivo Público já passou, por exemplo, o historiador Geraldo Coelho, cujo porte intelectual presumivelmente deveria fazê-lo sensível ao abandono do APEP e cobrar providências urgentes do governo, o que não ocorreu, pelo menos ao que se saiba.
        Foi esse imobilismo doloso e a preocupação em preservar o vasto patrimônio material e imaterial abrigado no Arquivo Público que provocaram a organização do ato público previsto para esta quinta-feira, 31. Uma constatação balizada pela compreensão de que em determinadas situações calar é mentir.

APEP – O desdém de Paulo Chaves

        O sucateamento do Arquivo Público é ilustrativo da inépcia administrativa do secretário estadual de Cultura, o arquiteto Paulo Chaves (foto), o PC da tucanalha, e seus prepostos. De 1995 a 2006, período que corresponde aos 12 anos de sucessivos governos do PSDB no Pará, ele reinou absoluto como titular da Secult, a Secretaria de Estado de Cultura, promovendo um ousado resgate arquitetônico, além de obras faraônicas, cujos custos ultrapassaram em muito o orçamento inicialmente previsto, para a incontida felicidade dos empreiteiros. Mas, possivelmente porque a restauração do prédio e do acervo do APEP não rendem votos, PC seguiu indiferente, absorvido por obras faraônicas, além de patrocinar o mais escancarado nepotismo, ao abrigar na Secult desde a mulher, arquiteta como ele, até a cunhada, uma obscura jornalista, passando pelo cunhado, médico veterinário.
        A passagem do PT pelo Palácio dos Despachos, com a eleição da ex-governadora Ana Júlia Carepa, não alterou o cenário de abandono do Arquivo Público. Hoje deputado estadual, pelo PT, Edilson Moura, como secretário estadual de Cultura, protagonizou uma administração opaca, limitada a factóides, mirando prioritariamente em sua eleição para a Alepa, a Assembleia Legislativa do Pará, valendo-se, naturalmente, da utilização da máquina administrativa estadual.

APEP – PC, o ladrão da história

        A indiferença de Paulo Chaves, o PC, de volta a Secult com a eleição do governador tucano Simão Jatene, não surpreende, em se tratando de alguém, como ele, que ficou conhecido como ladrão da história. Convém recordar que por puro capricho e valendo-se da cumplicidade do TJ Pará, o Tribunal de Justiça do Estado, ele aproveitou uma liminar para colocar abaixo, literalmente na calada da noite, um muro histórico do Forte do Castelo, de mais de 100 anos. O álibi para a lambança foi de que o muro não faria parte da construção original. Um tosco sofisma, diante do entendimento consensual de que peças agregadas a edificações históricas, quando perduram pelo menos cerca de 100 anos, ficam incorporadas a construção original.
        Muito antes de ascender ao proscênio do poder político, como secretário estadual de Cultura, PC já evidenciava seu menosprezo pela memória histórica. Quando o jornalista e empresário da comunicação Romulo Maiorana, já falecido, adquiriu o título da lendária Folha do Norte e o próprio prédio que abrigava o matutino comandado pelo jornalista Paulo Maranhão, PC foi convocado, como arquiteto, para uma reforma interna do imóvel, preservando-lhe as paredes externas, porque se trata de bela e histórica construção. Na adaptação do prédio, para abrigar o jornal O Liberal (foto dos fundos do imóvel, que dão para a Boulevard Castilho França), até então funcionando em um acanhado casarão na rua Santo Antônio, PC radicalizou e fez desaparecer inclusive as paredes originais da redação, que conservavam as marcas dos tiros disparados contra o prédio do jornal pelos baratistas, os correligionários do truculento interventor e depois governador eleito do Pará Joaquim Cardoso de Magalhães Barata, a quem Paulo Maranhão, um dos mais respeitados jornalistas da história da grande imprensa brasileira, fazia tenaz oposição. As marcas dos tiros nas paredes, apenas caiadas, eram as evidências de um passado não tão distante e da luta em defesa da democracia, com a qual não convivia bem Magalhães Barata.
        PC, na reforma, reduziu o pé direito da redação e revestiu suas paredes, apenas caiadas e conservando as marcas de balas, com um lambri de gosto para lá de duvidoso. Assim, ocultou, para todo o sempre, uma passagem palpável da história do Pará. Obviamente com a anuência de Romulo Maiorana, que ganhou visibilidade a partir dos porões do baratismo e cuja viúva, Lucidéa Batista Maiorana, embora de origem muito humilde, é sobrinha de Magalhães Barata. As circunstâncias sinalizam que para Romulo Maiorana teve um quê de implacável ironia comprar o título da lendária Folha do Norte e no prédio desta instalar O Liberal, em suas origens um mero pasquim a serviço do PSD, o Partido Social Democrático, que no Pará se coinfunde com o baratismo. Romulo Maiorana modernizou O Liberal, ao qual tratou de viabilizar comercialmente, como um jornal noticioso, favorecido pela decadência da Folha do Norte, que não resistiu a morte de Paulo Maranhão e as disputas intestinas entre seus herdeiros. Arguto, o patriarca dos Maiorana teve a sensibilidade de ficar em sintonia a nova ordem, imposta pelo golpe militar de 1964, que remeteu para o limbo os presumíveis herdeiros políticos de Joaquim Cardoso de Magalhães Barata. Sagaz, ao mesmo tempo ele certamente entreviu a decadência de A Província do Pará, um título com mais de 100 anos, mas cuja tradição não foi suficiente para fazê-lo resistir a ruína dos Diários e Emissoras Associados, o conglomerados de empresas jornalísticas construído por Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, mais conhecido como Assis Chateaubriand, ou Chatô. Na sua época, Chateaubriand foi o equivalente, em matéria de prestígio e poder político, a Roberto Marinho, já falecido, o todo-poderoso criador das Organizações Globo. Morto Chatô, os Diários e Emissoras Associados acabaram naufragando na inépcia administrativa, até que a Rede Tupi de Televisão tivesse sua concessão cassada pelo general João Baptista Figueiredo, o último presidente da ditadura militar. A partir daí A Província do Pará seguiu decadente, até desaparecer, enquanto O Liberal consolidava-se como líder do mercado, turbinado pelo prestígio da TV Globo, da qual tornou-se afiliada a TV Liberal, cuja concessão foi obtida em nome de terceiros, para aplacar as restrições dos setores mais austeros do regime militar, devido ao passado, como contrabandista, de Romulo Maiorana.

APEP – Um breve parêntese

        Antes de prosseguir com os antecedentes de Paulo Chaves, o PC, como ladrão da história, convém registrar uma passagem do passado recente da política do Pará, protagonizada por Romulo Maiorana (foto), já falecido, devastado pelo câncer.
        Romulo Maiorana, diga-se, teve a sensibilidade de não queimar as caravelas em relação aos baratistas e até com alguns daqueles que fizeram oposição a Magalhães Barata. Ele manteve ao seu lado, como redatores do Repórter 70, a prestigiada coluna de O Liberal, Newton Miranda, o vice-governador cassado pelo golpe militar de 1964, e Hélio Gueiros, então deputado e também vítima do expurgo político promovido pelo regime dos generais. Newton Miranda e Hélio Gueiros redigiam a parte superior do Repórter 70 e foram etiquetados, por Romulo Maiorana, como cardeais da coluna. A parte inferior da coluna, o Em poucas linhas, ficava sob a responsabilidade do próprio Romulo Maiorana, dono de um estilo inconfundível, com notícias e comentários de redação curta, que valorizava com o molho da verve e da ironia, mas sobretudo com o furo jornalístico, ao revelar em primeira mão os bastidores do poder.
        Os baratistas menos afortunados, Romulo Maiorana ajudava financeiramente com o pagamento de quinzenadas, feitas sempre nos dias 14 e 28 de cada mês, as datas nas quais, na época, recebiam seus salários os funcionários de O Liberal. Dentre os beneficiários da generosidade de Romulo Maiorana figurava, por exemplo, Laércio Barbalho, já falecido, pai do senador e ex-governador Jader Barbalho, hoje o morubixaba do PMDB no Pará e a mais longeva liderança política da história do Estado. Pela idade, Laércio Barbalho- cassado por corrupção - e outros, como ele já idosos, eram dispensados de subir as muitas escadas até a tesouraria do jornal, permanecendo no térreo, sentados em confortáveis poltronas, sob a atenção de dona Ruth Gonçalves, que logo tratava de mandar servir-lhes água e café da hora. Discreta senhora de muitos segredos, dona Ruth sempre conjugou competência e simpatia e foi a funcionária da mais absoluta confiança do patriarca dos Maiorana, ao qual acompanhava desde a época da rede de lojas RM Modas, com as quais Romulo começou a diluir seus vínculos, do passado, com o contrabando.

APEP – O desaparecimento do muiraquitã

        Mas, voltando a Paulo Chaves, o PC, convém recordar que ele foi protagonista de um escândalo que somente a deletéria tradição de impunidade lhe permite, até hoje, circular livre, leve e solto, a despeito da extensão da pilhagem da qual é também responsável, como secretário de Cultura. Trata-se do desaparecimento - durante a gestão anterior de PC na Secult - de um muiraquitã (semelhante ao que ilustra a postagem) branco de jadeíta, de 50 milímetros, 42 gramas e com idade aproximada de 2,5 mil anos, de origem tapajônica, pertencente ao acervo do Museu das Gemas do Estado. De valor histórico inestimável, na ocasião, no câmbio negro, o muiraquitã valeria cerca de US$ 30 mil. O desaparecimento do muiraquitã ocorreu por ocasião da sua eventual remoção para ser fotografado em Icoaraci, ao que consta sem obedecer os ritos exigidos pela lei, em tais casos.
        O responsável imediato pela lambança foi Alan Watrin Coelho, então um jovem professor de história da rede pública de ensino, que na empáfia própria da juventude costumava se apresentar como historiador. Alan Watrin Coelho é filho de Geraldo Coelho, este sim historiador, e sobrinho de Tereza Cativo, uma das cabeças coroadas da tucanalha, ao lado de Sérgio Leão. Por conta de uma operação abafa, o muiraquitã sumiu sem deixar vestígios e tanto Alan Watrin Coelho quanto PC seguiram impunes.
        A desfaçatez de PC é tão acintosa, que ao deixar a Secult pretendeu questionar judicialmente a remoção de uma colagem, com a sua fotografia, pendurada em uma das paredes da Estação da Doca. Sobre o sumiço do muiraquitã, PC não proferiu nenhuma mísera palavra. O que é ilustrativo da certeza da impunidade que turbina as lambanças dos meliantes engravatados.