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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

SANTIAGO ANDRADE – A despedida da filha

Santiago Andrade, em ação: legado exaltado pela filha, Vanessa.

        A filha do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade, 49, publicou uma carta de despedida em sua página no Facebook nesta última segunda-feira, 10. No texto, Vanessa Andrade diz que o pai tinha uma tatuagem com o nome da filha no antebraço e que passou a noite no hospital se despedindo.

        "Deitada em seu ombro, tivemos tempo de conversar sobre muitos assuntos, pedi perdão pelas minhas falhas e prometi seguir de cabeça erguida e cuidar da minha mãe e meus avós”, relata Vanessa. “Ele estava quentinho e sereno", escreveu. "Éramos só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter."

SANTIAGO ANDRADE – Um comovente adeus

Santiago Andrade com a filha, Vanessa: comovente despedida.

        Segue abaixo, na íntegra, o comovente texto de Vanessa:

        “Meu nome é Vanessa Andrade, tenho 29 anos e acabo de perder meu pai.
        “Quando decidi ser jornalista, aos 16, ele quase caiu duro. Disse que era profissão ingrata, salário baixo e muita ralação. Mas eu expliquei: 'vou usar seu sobrenome'. Ele riu e disse: 'então pode!'
        “Quando fiz minha primeira tatuagem, aos 15, achei que ele ia surtar. Mas ele olhou e disse: ‘caramba, filha. Quero fazer também’. E me deu de presente meu nome no antebraço.
        Quando casei, ele ficou tão bêbado, que na hora de eu me despedir pra seguir em lua de mel, ele vomitava e me abraçava ao mesmo tempo.
        “Me ensinou muitos valores. A gente que vem de família humilde precisa provar duas vezes a que veio. Me deixou a vida toda em escola pública porque preferiu trabalhar mais para me pagar a faculdade. Ali o sonho dele se realizava. E o meu começava.
        “Esta noite eu passei no hospital me despedindo. Só eu e ele. Deitada em seu ombro, tivemos tempo de conversar sobre muitos assuntos, pedi perdão pelas minhas falhas e prometi seguir de cabeça erguida e cuidar da minha mãe e meus avós. Ele estava quentinho e sereno. Éramos só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter. E ele também se despediu.
        “Sei que ele está bem. Claro que está. E eu sou a continuação da vida dele. Um dia meus futuros filhos saberão quem foi Santiago Andrade, o avô deles. Mas eu, somente eu, saberei o orgulho de ter o nome dele na minha identidade.
        “Obrigada, meu Deus. Porque tive a chance de amar e ser amada. Tive todas as alegrias e tristezas de pai e filha. Eu tive um pai. E ele teve uma filha.
        “Obrigada a todos. Ele também agradece.

        “Eu sou Vanessa Andrade, tenho 29 anos e os anjinhos do céu acabam de ganhar um pai.”

SANTIAGO ANDRADE – A democracia de luto


SANTIAGO ANDRADE – Uma justa homenagem


Santiago Andrade: filmando o protesto e já mortalmente ferido.

        “A violência é condenável sempre, venha de onde vier. Ela pode atingir um manifestante, um policial, um cidadão que está na rua e que não tem nada tem a ver com a manifestação. E pode atingir os jornalistas, que são os olhos e os ouvidos da sociedade. Toda vez que isso acontece, a sociedade perde, porque a violência resulta num cerceamento à liberdade de imprensa.”

        A advertência é feita em uma das passagens do editorial da Rede Globo de Televisão, divulgado no Jornal Nacional desta última segunda-feira, 10, lido por William Bonner, editor-chefe do telejornal, no qual a emissora se posicionou sobre a morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, atingido por um rojão quando cobria a manifestação contra o aumento da passagem de ônibus na cidade do Rio de Janeiro. Ao término do Jornal Nacional, enquanto os créditos finais do telejornal eram exibidos, o som foi cortado. Em seguida, cinegrafistas da Globo e jornalistas da redação aplaudiram Santiago, cuja imagem aparecia em um telão, abraçado a seu instrumento de trabalho, uma câmera.

SANTIAGO ANDRADE – O editorial da Rede Globo

William Bonner: editorial da Rede Globo lido no Jornal Nacional.

        Segue, abaixo, a íntegra do editorial da Rede Globo de Televisão, lido por William Bonner, editor-chefe do Jornal Nacional, na edição de segunda-feira, 10, do telejornal:

        “Não é só a imprensa que está de luto com a morte do nosso colega da TV Bandeirantes Santiago Andrade. É a sociedade.
        “Jornalistas não são pessoas especiais, não são melhores nem piores do que os outros profissionais. Mas é essencial, numa democracia, um jornalismo profissional, que busque sempre a isenção e a correção para informar o cidadão sobre o que está acontecendo. E o cidadão, informado de maneira ampla e plural, escolha o caminho que quer seguir. Sem cidadãos informados não existe democracia.
        “Desde as primeiras grandes manifestações de junho, que reuniram milhões de cidadãos pacificamente no Brasil todo, grupos minoritários acrescentaram a elas o ingrediente desastroso da violência. E a cada nova manifestação, passaram a hostilizar jornalistas profissionais.
        “Foi uma atitude autoritária, porque atacou a liberdade de expressão; e foi uma atitude suicida, porque sem os jornalistas profissionais, a nação não tem como tomar conhecimento amplo das manifestações que promove.
        “Também a polícia errou - e muitas vezes. Em algumas, se excedeu de uma forma inaceitável contra os manifestantes; em outras, simplesmente decidiu se omitir. E, em todos esses casos, a imprensa denunciou. Ou o excesso ou a omissão.
        “A violência é condenável sempre, venha de onde vier. Ela pode atingir um manifestante, um policial, um cidadão que está na rua e que não tem nada tem a ver com a manifestação. E pode atingir os jornalistas, que são os olhos e os ouvidos da sociedade. Toda vez que isso acontece, a sociedade perde, porque a violência resulta num cerceamento à liberdade de imprensa.
        “Como um jornalista pode colher e divulgar as informações quando se vê entre paus e pedras e rojões de um lado, e bombas de efeito moral e bala de borracha de outro?
        “Os brasileiros têm o direito de se manifestar, sem violência, quando quiserem, contra isso ou a favor daquilo. E o jornalismo profissional vai estar lá - sem tomar posição a favor de lado nenhum.
        “Exatamente como o nosso colega Santiago Andrade estava fazendo na quinta-feira passada. Ele não estava ali protestando, nem combatendo o protesto. Ele estava trabalhando, para que os brasileiros fossem informados da manifestação contra o aumento das passagens de ônibus e pudessem formar, com suas próprias cabeças, uma opinião sobre o assunto.
        “Mas a violência o feriu de morte aos 49 anos, no auge da experiência, cumprindo o dever profissional.
        “O que se espera, agora, é que essa morte absurda leve racionalidade aos que contaminam as manifestações com a violência. A violência tira a vida de pessoas, machuca pessoas inocentes e impede o trabalho jornalístico, que é essencial - nós repetimos - essencial numa democracia.
        “A Rede Globo se solidariza com a família de Santiago, lamenta a sua morte, e se junta a todos que exigem que os culpados sejam identificados, exemplarmente punidos. E que a polícia investigue se, por trás da violência, existe algo mais do que a pura irracionalidade.”