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| William Bonner: editorial da Rede Globo lido no Jornal Nacional. |
Segue, abaixo, a íntegra do editorial da
Rede Globo de Televisão, lido por William Bonner, editor-chefe do Jornal Nacional, na edição de
segunda-feira, 10, do telejornal:
“Não é só a imprensa que está de luto
com a morte do nosso colega da TV Bandeirantes Santiago Andrade. É a sociedade.
“Jornalistas não são pessoas especiais,
não são melhores nem piores do que os outros profissionais. Mas é essencial,
numa democracia, um jornalismo profissional, que busque sempre a isenção e a
correção para informar o cidadão sobre o que está acontecendo. E o cidadão,
informado de maneira ampla e plural, escolha o caminho que quer seguir. Sem
cidadãos informados não existe democracia.
“Desde as primeiras grandes
manifestações de junho, que reuniram milhões de cidadãos pacificamente no
Brasil todo, grupos minoritários acrescentaram a elas o ingrediente desastroso
da violência. E a cada nova manifestação, passaram a hostilizar jornalistas
profissionais.
“Foi uma atitude autoritária, porque
atacou a liberdade de expressão; e foi uma atitude suicida, porque sem os
jornalistas profissionais, a nação não tem como tomar conhecimento amplo das
manifestações que promove.
“Também a polícia errou - e muitas
vezes. Em algumas, se excedeu de uma forma inaceitável contra os manifestantes;
em outras, simplesmente decidiu se omitir. E, em todos esses casos, a imprensa
denunciou. Ou o excesso ou a omissão.
“A violência é condenável sempre, venha
de onde vier. Ela pode atingir um manifestante, um policial, um cidadão que está
na rua e que não tem nada tem a ver com a manifestação. E pode atingir os
jornalistas, que são os olhos e os ouvidos da sociedade. Toda vez que isso
acontece, a sociedade perde, porque a violência resulta num cerceamento à
liberdade de imprensa.
“Como um jornalista pode colher e
divulgar as informações quando se vê entre paus e pedras e rojões de um lado, e
bombas de efeito moral e bala de borracha de outro?
“Os brasileiros têm o direito de se
manifestar, sem violência, quando quiserem, contra isso ou a favor daquilo. E o
jornalismo profissional vai estar lá - sem tomar posição a favor de lado
nenhum.
“Exatamente como o nosso colega Santiago
Andrade estava fazendo na quinta-feira passada. Ele não estava ali protestando,
nem combatendo o protesto. Ele estava trabalhando, para que os brasileiros
fossem informados da manifestação contra o aumento das passagens de ônibus e
pudessem formar, com suas próprias cabeças, uma opinião sobre o assunto.
“Mas a violência o feriu de morte aos 49
anos, no auge da experiência, cumprindo o dever profissional.
“O que se espera, agora, é que essa
morte absurda leve racionalidade aos que contaminam as manifestações com a
violência. A violência tira a vida de pessoas, machuca pessoas inocentes e
impede o trabalho jornalístico, que é essencial - nós repetimos - essencial
numa democracia.
“A Rede Globo se solidariza com a
família de Santiago, lamenta a sua morte, e se junta a todos que exigem que os
culpados sejam identificados, exemplarmente punidos. E que a polícia investigue
se, por trás da violência, existe algo mais do que a pura irracionalidade.”