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domingo, 24 de agosto de 2014

GETÚLIO – Os 60 anos da tragédia de 24 de agosto



        Neste 24 de agosto, quando transcorrem os 60 anos do suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas, o Blog do Barata retoma o tema, já abordado quatro anos atrás, pela relevância do personagem na história do Brasil e pela conveniência de dele dar conhecimento, sem mitificações, às novas gerações. Para tanto resgato um trabalho anterior sobre o assunto, com alguns reparos e modificações, publicado em 2005 no Pauta Aberta, denominação sob a qual surgiu, naquele ano, o Blog do Barata.
        As postagens sustentam-se em alguns registros da memória e consultas à internet, para confirmar datas e pinçar fotos, e a livros que remetem ao período, além de “A Era Vargas” e “Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro”, links do CPDOC, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, a respeitada instituição brasileira sem fins lucrativos, fundada em 1944 e que se dedica ao ensino e à pesquisa em ciências sociais. A isso se soma um artigo de Roberto Pompeu de Toledo, na revista Veja (edição nº 1843, de 3 de março de 2004), na qual o jornalista comenta a carta-testamento. Os livros que serviram de fonte para as postagens foram “De raposas e reformistas – PSD e a experiência democrática brasileira (1945-64)”, de Lucia Hippolito (Editora Paz e Terra); “A UDN e o udenismo – Ambigüidades do liberalismo brasileiro (1945-1965)”, de Maria Victoria de Mesquita Benevides (297 páginas, Editora Paz e Terra, de 1981); “O governo Kubitschek – Desenvolvimento econômico e estabilidade política (1956-1961)”, também de Maria Victoria de Mesquita Benevides (304 páginas, Editora Paz e Terra, de 1979); e “Samuel Wainer – Minha Razão de Viver – Autobiografia”, com organização e edição de textos do jornalista Augusto Nunes (368 páginas, Editora Planeta, edição de 2005).
        “Minha Razão de Viver” constitui-se, diga-se, em um capítulo à parte, e não só pela importância histórica de Samuel Wainer, um dos mais competentes jornalistas da história do jornalismo nacional, que revolucionou a imprensa brasileira, inclusive elevando o patamar salarial dos jornalistas, o que rendeu-lhe a hostilidade dos demais barões da comunicação da sua época. Editado primeiramente pela Record, em 1987, o livro foi posteriormente relançado pela Planeta, em uma nova edição, mais uma vez organizada pelo jornalista Augusto Nunes, porém contendo duas revelações omitidas na versão anterior por respeito a testemunhas que ainda estavam vivas, a pedido de Wainer, também notabilizado como um gentleman e um conquistador irresistível.

        A primeira revelação contida na edição da Editora Planeta de “Minha Razão de Viver” foi a verdadeira nacionalidade de Samuel Wainer, nascido na Bessarábia, então incorporada ao Império Russo, e não em São Paulo, uma balela sustentada durante anos e mantida no livro original. Na CPI instaurada em 1953 para investigar a contabilidade do jornal Última Hora - cuja linha era favorável a Vargas -, a oposição tentou provar que o jornalista não nascera no Brasil. Era proibido a estrangeiros comandar jornais no País e muitos amigos do jornalista coonestaram a fraude, para evitar que Wainer perdesse o diário. Outra novidade foi a revelação do nome do responsável pelo caixa dois no governo do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964 - Caio Dias Batista, já então falecido. Wainer, recorde-se, figurou dentre os proscritos pela ditadura militar de 1964.

GETÚLIO – Da vida para a história

Getúlio Vargas, o Pai dos Pobres: de ditador a presidente eleito.

        “Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”
        O que ele próprio previu no arremate da sua carta-testamento, que é o mais célebre texto atribuído a um presidente do Brasil, acabou por ocorrer e tornou Getúlio Vargas um personagem definitivamente incorporado à história sob a aura destinada aos heróis das massas. Mesmo 60 anos depois de seu suicídio, ocorrido às 8 horas da manhã de 24 de agosto de 1954, com um tiro no coração, na esteira de uma das mais dramáticas crises político-militar do País, Getúlio Vargas perdura como uma referência obrigatória, para o bem ou para o mal, sempre que se trata de algumas das mais vitais transformações pelas quais passou o Brasil. O suicídio, pela comoção que provocou, acabou por fazer sobrepor, para as massas, a figura do presidente eleito, que governou de 1951 a 1954, ao ditador que também foi Getúlio, ao comandar com mãos de ferro, e alta dose de intolerância e truculência, o Estado Novo, de 1930 a 1945, até ser deposto pelos militares.
        De ditador a presidente eleito, Getúlio percorreu um tortuoso caminho. O Pai dos Pobres, que patrocinou a legislação trabalhista, com uma série de conquistas para os assalariados - como a instituição da Carteira Profissional, do salário mínimo e da jornada de trabalho de oito horas diárias, dentre outros benefícios -, foi o mesmo que namorou o nazifascismo, reprimiu violentamente a oposição e ignominiosamente deportou Olga Benário, mesmo grávida, para a Alemanha, onde a mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes, preso juntamente com ela no Brasil, seria remetida a um campo de concentração e assassinada pelos nazistas. As condições sob as quais Getúlio manteve Prestes na prisão eram tão abjetas que o advogado do líder comunista, o respeitável Sobral Pinto, invocou a Lei de Proteção aos Animais, em defesa do seu cliente, a quem defendeu gratuitamente, ainda que dele discordando visceralmente do ponto de vista político. Deposto, o Pai dos Pobres retornou ao poder aclamado pelo povo, como presidente eleito, protagonizando um governo tumultuado, fustigado impiedosamente pela oposição implacável dos setores conservadores da sociedade brasileira.

        A carta-testamento, com o valor que também tem como peça literária, reforçou a comoção causada pelo suicídio de Getúlio, revertendo completamente o clima que precedeu o desfecho da tragédia. Nos 15 dias anteriores ao seu suicídio, ele foi impiedosamente criticado pela imprensa. A população, forças políticas e as Forças Armadas exigiam sua renúncia. O que certamente explica a passagem do documento na qual Getúlio denuncia o linchamento político do qual era vítima. “Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa”, desabafa, na sua despedida.

GETÚLIO – Comoção e revolta

Samuel Wainer: no olho do furacão provocado pela morte de Vargas.
Última Hora, único jornal poupado da ira popular.

        A comoção provocada pelo suicídio levou às ruas do Rio, então capital do Brasil, a massa fiel a Getúlio, que extravasou seu ódio contra aqueles que conspiraram contra seu líder. Naquele 24 de agosto, multidões exasperadas atacaram praticamente todos os jornais, bloqueando sua circulação, com exceção do Última Hora, identificado com o getulismo, conforme relato deixado para a posteridade por Samuel Wainer, proprietário do jornal e um dos mais brilhantes jornalistas da história da imprensa brasileira.

        Wainer acrescenta, em seu testemunho sobre aquele trágico 24 de agosto de 1954, que depois de uma parada diante do Última Hora, em uma espécie de endosso à linha editorial do jornal, a manifestação prosseguiu, com a massa quebrando os símbolos do antigetulismo e procurando Carlos Lacerda, que teve de esconder-se e, mais tarde, refugiar-se por algum tempo no exterior. “O único (jornal) a circular foi o Última Hora, que vendeu quase 800 mil exemplares”, recordou em suas memórias Wainer. “A oficina não parou de trabalhar. Foram 20 horas rodando sucessivas edições. O povo sequer esperava que os exemplares chegassem às bancas – arrancava-os dos caminhões distribuidores, ávidos por notícias sobre a tragédia”, relembrou.
       

GETÚLIO – Campanha precede a morte

Gregório Fortunato (de chapéu), o Anjo Negro: sob suspeita.

        Antes da tragédia de 24 de agosto de 1954, aumentara a campanha contra Getúlio. Sobretudo depois que Gregório Fortunato, o Anjo Negro, seu guarda-costas e espécie de secretário particular, despontou como suspeito de tramar um atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, o mais impiedoso adversário civil de Getúlio. No atentado da rua Toneleros contra Lacerda, o major da Aeronáutica Rubens Vaz perdeu a vida. O episódio potencializou a razia política contra Getúlio, fazendo repercutir ainda mais intensamente as denúncias sobre um “mar de lama” no Palácio do Catete, envolvendo assessores e até irmãos do presidente.

        Já na madrugada de 24 de agosto de 1954, o marechal Mascarenhas de Morais e o general Zenóbio Costa levaram ao presidente um ultimato, que vem a ser a declaração final e irrevogável para satisfação de certas exigências. O ultimato era claro: ou Getúlio aceitava uma licença oficial de 90 dias - mas que de fato seria definitiva, conforme exigência adicional das Forças Armadas -, ou seria deposto.

GETÚLIO – Suicídio, a promessa cumprida


O cadáver de Getúlio Vargas e a comoção no velório do ex-presidente.
        Getúlio, que se recusava a admitir a deposição, já tivera sua posição antecipada pelo jornal Última Hora. “Só morto sairei do Catete”, proclamara, irredutível, em uma declaração que serviu de manchete à edição de 24 de agosto de 1954 do Última Hora, jornal identificado com o getulismo e que revolucionou a imprensa brasileira, inclusive elevando o padrão salarial dos jornalistas, o que também atraiu o ódio dos barões da comunicação de então. Para a edição extra, sobre o suicídio de Getúlio, Samuel Wainer optou por repetir a manchete da edição do dia 24, “Só morto sairei do Catete”, acrescentando acima dela o antetítulo: “Ele cumpriu a promessa”.

        Longe de um blefe, como se viu, tratava-se de uma decisão inarredável. Getúlio cumpriu o que prometera ao dar um tiro no coração, em seu quarto no Palácio do Catete, no Rio, na época a capital do Brasil. O gesto desesperado e dramático embutiu uma dignidade pessoal comovente, que deixou aparvalhados todos aqueles que até a véspera combatiam Getúlio.

GETÚLIO – Crise com desfecho trágico


Lacerda, com Jango (acima) e JK (abaixo): vítima do golpe no qual
apostou, até a tardia reconciliação com os adversários históricos.

        Ao suicidar-se, aos 71 anos, Getúlio Vargas pôs um ponto final em seu terceiro e último período de governo e na crise político-militar que fustigava o Palácio do Catete. De acordo com o relato dos jornais da época, depois de várias horas de sucessivas discussões com ministros, militares e com a própria família, o presidente subiu aos seus aposentos. Naquela altura o palácio estava praticamente vazio.
        A frase que abre a carta-testamento, por ele deixada para a posteridade, é devastadora para quem lhe fez oposição. “Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte.” E acrescenta, em comovente reverência às massas getulistas: “Dei-vos a minha vida. Agora ofereço a minha morte.”
        O jornalista Carlos Lacerda, que movia uma implacável oposição a Getúlio, por exemplo, viu sepultada, com a comoção popular provocada pelo suicídio de Vargas, o plano de ser catapultado para o Palácio do Catete pelos militares, sob o clamor da classe média. “Acabaram com a minha festa!”, teria exclamado Lacerda, no desabafo que lhe é atribuído e cuja autoria, embora a rigor incerta, passou como sua para a posteridade. Mas Lacerda, é verdade, jamais desistiu de sua ambição, até vê-la sepultada pelos militares que comandaram o golpe de 1964, do qual, ironicamente, ele foi um dos líderes civis. O Corvo, como ficou conhecido, em um apelido dado pelo jornal Última Hora e que a ele aderiu, fez carreira como golpista, até se tornar vítima de sua própria pregação.

        Após estimular um golpe branco e tentar adiar as eleições de 1955, Lacerda retomou sua catilinária golpista diante da perspectiva de candidatura do ex-presidente Juscelino Kubitschek, o JK, que ganha musculatura política como governador de Minas Gerais e acabou eternizado como Presidente Bossa Nova, pela sua bonomia pessoal, postura democrática e por investir no desenvolvimentismo. "Ele não será candidato; se for, não vencerá as eleições; se vencer, não tomará posse; se tomar posse não governará", proclamou Lacerda, em vão. O comunista da juventude, jamais formalmente aceito pelo PCB, que tornara-se um anticomunista radical, amargaria seu golpe de misericórdia com a ditadura militar instalada no Brasil em 1964. Após estimular e ajudar a viabilizar o golpe de 1964, quando era governador do recém-criado Estado da Guanabara, foi alijado pelos militares que ajudara a apear do poder o ex-presidente João Goulart, o Jango, e que posteriormente tirariam de cena JK. Ao se reconciliar com ambos, Jango e JK, mirando na formação de uma Frente Ampla, em 1968 - quando o regime dos generais despiu a máscara e se assumiu como ditadura, com a edição do AI-5, o Ato Institucional nº 5 - Lacerda teve seus direitos políticos cassados, tal qual ocorrera antes, no alvorecer do golpe militar de 1964, com Goulart e Kubitschek. E como estes, aos quais tanto vilipendiara e com os quais se reconciliou tardiamente, teve um fim de vida amargurado, mas com um agravante - foi vítima de si mesmo, da sua inescrupulosa ambição.

GETÚLIO – Atentado agrava crise

 Lacerda, baleado no pé, no atentado da rua Toneleros, que agrava a crise.

        A crise política que virtualmente caracterizou todo o segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954) ganhou uma nova dimensão e foi agravada a partir do atentado da rua Toneleros. Ocorrido em 5 de agosto de 1954, nesse episódio foi assassinado o major-aviador Rubens Vaz e levemente ferido o jornalista Carlos Lacerda, que ganhara notoriedade pelo combate sistemático e virulento a Getúlio nas páginas do jornal Tribuna da Imprensa. A inflamada pregação golpista de Carlos Lacerda, que ecoava o discurso da UDN, a União Democrática Nacional, acabaria por contaminar as Forças Armadas, a partir do atentado da rua Toneleros.

        As investigações revelaram a participação no atentado de integrantes da guarda pessoal do presidente. No Congresso, a bancada da UDN, uma legenda à direita do arco ideológico, exigia insistentemente a destituição de Getúlio. A grande maioria da oficialidade da Aeronáutica e da Marinha, e uma parcela significativa do Exército, compartilhavam do golpismo udenista. Na imprensa emergiam sucessivas denúncias de corrupção e irregularidades administrativas incriminando familiares e personagens ligados ao presidente.

GETÚLIO – A imposição militar

        No dia 22 de agosto de 1954 os brigadeiros da Aeronáutica enviaram um documento a Getúlio exigindo sua renúncia. No dia seguinte, a alta oficialidade da Marinha endossou a exigência dos seus colegas de Força Aérea.

        A situação agravou-se ainda mais na noite do dia 23, quando o ministro da Guerra, Euclides Zenóbio da Costa, informou o presidente sobre a existência de um manifesto em apoio à reivindicação dos brigadeiros, assinado por vários generais do Exército, dentre os quais Álvaro Fiúza de Castro, Canrobert Pereira da Costa, Juarez Távora, Humberto Castelo Branco, Peri Bevilacqua e Henrique Lott.

GETÚLIO – Reunião em plena madrugada

        Refratário à imposição militar, Getúlio se recusava a renunciar. Mas decidiu discutir imediatamente a questão com o ministério. A reunião ministerial teve início às 3 horas da madrugada do dia 24. Conforme os depoimentos legados para a história, o presidente indagou de cada ministro o que, na sua opinião, deveria ser feito. O ministro da Guerra, Euclides Zenóbio da Costa, declarou que a situação se agravava e que uma ampla maioria dos oficiais que comandavam tropas provavelmente não obedeceria às ordens para reprimir a Força Aérea e a Marinha. O ministro da Guerra acrescentou ainda que, se recebesse instrução neste sentido, ele daria essas ordens, mas muito sangue correria e o resultado seria incerto.

        Na reunião ministerial realizada em plena madrugada, o ministro Renato Guillobel, da Marinha, observou que esta já se posicionara solidária a Aeronáutica. O ministro da Aeronáutica, Epaminondas Gomes dos Santos, salientou que nada havia a ser feito capaz de reverter a postura da sua corporação.

GETÚLIO – A palavra final

Tancredo  (à dir.), autor da nota na qual Vargas repele a deposição.

        O governador do Rio, Ernani do Amaral Peixoto, que era também genro de Getúlio, apresentou a proposta de licenciamento do presidente. Tancredo Neves, o ministro da Justiça, fez uma contraproposta, defendendo que o povo deveria ser consultado através do parlamento. Na falta de um resultado concreto, Getúlio tomou a palavra e declarou: “Já que o ministério não chega a nenhuma conclusão, eu vou decidir. Determino que os ministros militares mantenham a ordem pública. Se conseguirem, eu apresentarei o meu pedido de licença. No caso contrário, os revoltosos encontrarão aqui dentro do palácio o meu cadáver.” Dito isso, o presidente retirou-se da sala.

        Os ministros e demais participantes da reunião avaliaram que seria conveniente redigir um comunicado anunciado ao povo a decisão adotada. Tancredo Neves redigiu a nota, que foi levada por Osvaldo Aranha a Getúlio, para obter a aprovação deste. Às 4h45 o País era informado da resolução do presidente: “Deliberou o presidente Vargas, com a integral solidariedade dos seus ministros, entrar em licença, passando o governo a seu substituto legal, desde que seja mantida a ordem, respeitados os poderes constituídos e honrados os compromissos solenemente assumidos perante a Nação pelos oficiais generais das nossas forças armadas. Em caso contrário, persistiria inabalável no seu propósito de defender suas prerrogativas constitucionais com o sacrifício, se necessário, de sua própria vida.”

GETÚLIO – O último ato

        Ao término da reunião, o ministro da Guerra, Euclides Zenóbio da Costa, dirigiu-se ao Ministério da Guerra, onde encontrou-se com os generais que faziam oposição a Getúlio e pelos quais foi convencido de que o afastamento do presidente teria de ser definitivo. As primeiras notícias de que os generais haviam decidido por um ultimato final a Getúlio – agora apoiado pelo próprio ministro da Guerra - chegaram ao Palácio do Catete às 7 horas da manhã de 24 de agosto.

        Coube a Benjamin Vargas comunicar ao irmão a decisão dos militares, que significava na prática a deposição do presidente. Minutos depois Getúlio suicidou-se com um tiro no coração.

GETÚLIO – A carta-testamento

Passagem da carta-testamento de Getúlio Vargas, que exacerbou a comoção popular.

        Na carta testamento, divulgada logo após seu suicídio, ocorrido por volta das 8 horas da manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas denunciava que uma campanha subterrânea de grupos internacionais aliara-se a grupos nacionais, procurando criar obstáculos ao regime de proteção de trabalho, às limitações dos lucros excessivos e às propostas de criação da Petrobrás e da Eletrobrás.
        Em seguida, a íntegra do famoso documento deixado por Getúlio Vargas, que potencializou a comoção causada pelo seu suicídio:

        ''Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa.
        “Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
        “Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
        “Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
        “Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
        “E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte
        “Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.


        “Rio de Janeiro, 23/08/54 – Getúlio Vargas”

GETÚLIO – Um texto célebre

        O mais célebre texto atribuído a um presidente do Brasil, a carta-testamento de Getúlio Vargas, já foi reconhecida como “um primor de texto certo na hora certa”, conforme a definição do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, da Veja, em um artigo publicado na edição nº 1843 da revista, de 3 de março de 2004. Para Roberto Pompeu de Toledo, o texto tem ressonâncias shakespearianas e revela, de forma indiscutível, a dimensão do gênio político de Getúlio, ao potencializar os efeitos do seu suicídio.

        A carta-testamento, conforme relatam documentos do CPDOC, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, foi encontrada por Ernani do Amaral Peixoto, governador do Estado do Rio de Janeiro e genro de Getúlio, em cima de uma mesinha de cabeceira do quarto presidencial. O documento foi lido em voz alta por Osvaldo Aranha, ministro da Fazenda, para um grupo de pessoas que se encontrava no Palácio do Catete e em seguida transmitido por telefone para a Rádio Nacional. Antes das 9 horas da manhã daquele trágico 24 de agosto a mensagem começou a ser irradiada para todo o País.

GETÚLIO – Controvérsia sobre autoria

        Qualidades literárias à parte, uma controvérsia cerca a autoria da carta-testamento. Viceja a versão de que o autor da mesma seria, em verdade, o jornalista José Soares Maciel Filho, que teria cumprido assim seu papel de ghost-writer, que vem a ser o redator-fantasma, aquele que escreve discursos e outros textos para outro. Ou seja, o redator de aluguel que produz um texto para outro assinar.

        O jornalista Roberto Pompeu de Toledo, da Veja, descreve Maciel como “figura destacada na corte getulista”, que inclusive ocupou as superintendências do BNDE, o Banco Nacional de Desenvolvimento, antecessor do BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, e da Sumoc, a Superintendência da Moeda e do Crédito, que deu origem ao Bacen, o Banco Central. “Sua glória, porém, advém do ofício de ghost-writer. Ele é lembrado até hoje, e continuará sendo lembrado por muito tempo, como o autor da carta-testamento”, salienta Roberto Pompeu de Toledo, para acrescentar: “Com esse texto, que fez sob encomenda, e deu para outro assinar, saiu da obscuridade para entrar na história.”

GETÚLIO – Testemunhos sobre a carta

        O “Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro”, do CPDOC, salienta que os depoimentos de Alzira Vargas do Amaral Peixoto, Osvaldo Aranha, José Américo de Almeida e João Batista Luzardo, dentre outros personagens intimamente ligados a Getúlio Vargas e que com ele viveram a crise de agosto de 1954, são as únicas fontes de informação sobre a carta-testamento. “Apesar de existirem alguns pontos discordantes nesses depoimentos, todos são unânimes em atribuir a Getúlio a autoria da carta”, assinala um dos trechos do texto sobre o documento.

        “Outro dado fora de discussão é a participação – maior ou menor – na elaboração do documento do jornalista José Soares Maciel Filho, o redator favorito dos discursos de Getúlio”, acrescenta o texto. Na versão oferecida por Alzira Vargas do Amaral Peixoto, Maciel teria se limitado a inserir as cifras que o ilustram e a datilografá-lo. Já Miguel Teixeira afirmou que Osvaldo Aranha tivera um encontro com Maciel, no qual o jornalista confidenciara que Vargas o havia encarregado da redação final do documento, dando-lhe um pedaço de papel no qual estaria contida a idéia do manifesto e as frases finais. De acordo com Teixeira, o restante teria sido de responsabilidade exclusiva de Maciel.

GETÚLIO – O episódio do bilhete

Jovens , Alzira Vargas, fiel escudeira do pai, e o marido,
 Ernani do Amaral Peixoto: testemunhas  dos bastidores.

        Em torno da autoria da carta-testamento de Getúlio há ainda um episódio, que envolve um bilhete encontrado na mesa do gabinete presidencial e entregue a Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha predileta e fiel escudeira do presidente, na noite de 19 de agosto de 1954. O bilhete, escrito a lápis e com a letra de Getúlio, dizia: “A sanha dos meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter feito pelos humildes tudo o que desejava.” Seu conteúdo acabou aproveitado na carta-testamento, portanto.

        No dia seguinte, 19 de agosto, Alzira interpelou o pai sobre o significado daquelas palavras, conforme seu próprio relato. De acordo com Alzira, ao ser questionado, Getúlio assegurou-lhe que não pretendia suicidar-se.

GETÚLIO – Cópias da carta

        A carta-testamento teve mais três cópias conhecidas, além do exemplar encontrado no leito de morte de Getúlio. Alzira Vargas do Amaral Peixoto achou, entre os papéis retirados do cofre do pai, uma cópia assinada da carta, com erros de datilografia e correções, e uma cópia em carbono, sem assinatura. Encontrou também algumas anotações a lápis, com a letra de Getúlio, que constituíam a minuta do documento.

        Haveria ainda um último exemplar da carta-testamento, que teria sido entregue por Getúlio a João Goulart, pouco antes da reunião ministerial da madrugada do dia 24 de agosto de 1954. Goulart, que viajaria naquele mesmo dia para o Rio Grande do Sul e em seguida para a Buenos Aires, teria guardado a carta sem lê-la. Segundo Alzira Vargas do Amaral Peixoto, Goulart divulgaria a carta na Argentina, caso a crise tivesse como desfecho um golpe militar.

GETÚLIO – Suspeita orquestrada

        Imediatamente após a sua divulgação e conseqüente repercussão, surgiu a versão de que a carta-testamento seria apócrifa. A imprensa antigetulista, amplamente majoritária, e a UDN trataram de repercutir a suspeita, fazendo circular a versão de que o documento teria sido feito por aqueles interessados em explorar a morte de Getúlio com fins eleitorais.

        Na versão estimulada pelas forças antigetulistas, a carta apócrifa serviria para impedir a continuação das investigações contra Getúlio, iniciadas com o atentado da rua Toneleros. Isso protegeria, conforme a versão, getulistas envolvidos em falcatruas.

GETÚLIO – A repercussão do suicídio

A massa popular toma o Rio, no adeus a Getúlio.

        O impacto da notícia do suicídio de Getúlio, potencializado pela carta-testamento, mobilizou as massas nas grandes cidades. O cortejo que acompanhou o corpo de Getúlio Vargas do Palácio do Catete para o Aeroporto Santos Dumond – de onde foi transladado para São Borja, no Rio Grande do Sul – reuniu a maior multidão da História do Rio.
        A morte de Getúlio provocou sucessivas manifestações populares, com comícios denunciando o envolvimento norte-americano na morte de Getúlio e responsabilizando a UDN e a oposição. Armados de paus, centenas de populares percorriam as ruas, rasgando cartazes de propaganda eleitoral de candidatos antigetulistas.


GETÚLIO – A ira popular

        No Rio, as sedes dos jornais O Globo e  Tribuna da Imprensa, assim como a sede da Rádio Globo, foram atacadas por populares. Dois caminhões de entrega de O Globo foram incendiados. O ataque à embaixada dos Estados Unidos e ao prédio da Standart Oil foi rechaçado a bala. Os edifício da Light & Power e da Companhia Telefônica também foram atacados.

        Em São Paulo, milhares de operários entraram em greve de protesto e promoveram manifestações no centro da cidade. Cerca de 20 mil manifestantes tentaram depredar o edifício que abrigava os jornais dos Diários Associados, sendo contidos pela polícia. Em Porto Alegre, populares queimaram as sedes de jornais antigetulistas, O Estado do Rio Grande do Sul e Diário de Notícias, assim como da Rádio Farroupilha, depredando ainda um banco e o consulado dos EUA.