domingo, 20 de dezembro de 2015

MEMÓRIA – Gileno Chaves e o legado a ser resgatado, que vai muito além da importância da Elf Galeria

Gileno Chaves: legado de competência e probidade, a ser resgatado. 

A passagem dos 35 anos de inauguração da Elf Galeria, transcorridos a 11 de dezembro, reporta, fatalmente, à necessidade de um justo resgate do legado de Gileno Müller Chaves, um intelectual que foi um dos mais importantes personagens da vida cultural de Belém a partir de meados dos anos 70 até sua prematura morte, aos 63 anos, em 22 de dezembro de 2006, fulminado por um infarto, na esteira de um grave quadro de diabetes. Por si só, como a primeira galeria privada de Belém, que popularizou as artes plásticas, com preços compatíveis com a realidade do mercado local, sem nem por isso abdicar da qualidade, expondo obras de artistas consagrados nacional e regionalmente, a Elf é um marco na história das artes plásticas no Pará. Com a peculiaridade de não transacionar com entes públicos, um princípio cultivado como cláusula pétrea por Gileno e respeitado por seus herdeiros. A longevidade da Elf foi pavimentada, convém sublinhar, pelo profícuo trabalho desenvolvido pela viúva, Lucinha Chaves, e pelos filhos do casal, Luena e Ingor Chaves. Luena mais diretamente, ao se dedicar em tempo integral à galeria, enquanto Lucinha desdobra-se entre o magistério na UFPA, a Universidade Federal do Pará, e a Elf, e Ingor singra os mares bravios e extenuantes do jornalismo. Isso tudo, repita-se, fiel à diretriz que Gileno tornou uma questão de princípio, que é recusar-se à promiscuidade entre o público e o privado. O projeto da galeria, como instrumento de disseminação e popularização das artes plásticas, surgiu, prosperou e se consolidou sem qualquer injeção de recursos públicos, a uma distância abissal das seletivas, e dificilmente criteriosas, benesses dos inquilinos do poder.
Pessoalmente disciplinado, metódico e determinado, no limite da obsessão, para consumo externo Gileno despontava como algo imperial, intolerante, mesmo, frequentemente irascível, às vezes resvalando para a grosseria, principalmente quando se empolgava na defesa de seus pontos de vista. O contraponto do intelectual refinado e generoso, do profissional intransigentemente justo e honesto, do amigo incondicionalmente leal, capaz de gestos de comovente ternura, que tratava de minimizar com tiradas irônicas, no empenho de dissimular a timidez crônica. Advogado formado pela UFPA e administrador diplomado pelo Cesep, o Centro de Estudos Superiores do Estado do Pará (hoje Unama, Universidade da Amazônia), para além do profissional de competência, probidade e experiência reconhecidas, Gileno notabilizou-se sobretudo, apesar da discrição com que exerceu esse papel, como agitador cultural, expressão que sequer fora cunhada na época e serve para designar quem viabiliza e faz repercutir manifestações culturais. Essa faceta ele revelaria, sem alarde, a partir de 1977, como mentor do Parte, o Programa de Arte implementado pela Semec, a Secretaria Municipal de Educação e Cultura, então comandada por Mário Guzzo, um personagem singular, pela sensibilidade e afabilidade no trato pessoal, ingredientes inusitados em quem é catapultado para o proscênio do poder.

Quanto a Gileno, seu apreço pela austeridade era tanto e tamanho, que ele não só comparecia a todos os espetáculos subvencionados pela Semec, via Parte, como recusava-se pereptoriamente a aceitar cortesias, fazendo questão de pagar seu ingresso do próprio bolso. Assim, não só conferia se as montagens condiziam com os recursos nelas injetados, como estabelecia um prudente distanciamento formal com os subvencionados, zelando pela impessoalidade que a natureza da relação estabelecida impunha. Nada mais compatível com o modo Gileno de ser, diga-se.

4 comentários :

Anônimo disse...

Barata, justa e merecida homenagem ao saudoso Dr. Gileno. Gostaria apenas de retificar uma informação: a viúva Lúcia Chaves, nossa querida Lucinha, aposentou-se pouco antes do falecimento do marido, justamente para tocar as atividades da galeria ao lado dele, contribuindo com o seu brilhantismo. A Luena inicou depois, meados de 2009, com a reabertura da galeria em seu atual endereço. Ambas tem conduzido este trabalho primoroso em nome da arte, sempre com o auxílio do Ingo, que se dedica ao jornalismo, mas traz do jeitão de ser, todos os traços e ensinamentos do pai.

Rosangela Britto disse...

Justa homenagem e lembrança do saudoso Gileno e seu trabalho em prol da criação e sedimentação do campo das Artes Plásticas e Visuais em Belém.Parabéns a família pela manutenção da Galeria, em especial, a Lucinha e Luena.

Anônimo disse...

Conheci o Gileno da casa do Luiz Otávio Barata, do era amigo. Eu era ator do geupo cenaberta, do qual este era diretor. Vi.muitas vezes gileno na plateia dos espetáculos iconoclastas do grupo. Ele intituiu na semec um edital de fomento às artes cênicas (depois disso não tivemos mais editais, a não ser um pálido e conturbado que existiu por apenas dois anos no gov ana Julia). Frequentei Elf no seu tempo, ainda frequento. Gileno merece esta homenagem e mais ainda.
Marton Maués

simei bacelar disse...

Gileno é único. Sem ter a pretensão, ele me ensinou muito sobre o mercado da arte e da importância dos espaços culturais apoiarem e incentivarem a arte e o artista, coisa incompreendida até hoje, mas que eu capturei com a convivência com ele. Sim, ele merece esta e outras homenagens.